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Pesquisa em fósseis desvenda a anatomia e o cérebro da preguiça-gigante

Curador de paleontologia da PUC Minas integra equipe internacional de pesquisadores

FOTO: Museu de Ciências Naturais PUC Minas apresenta dinossauros que dominaram a terra no período Mesozoico durante aproximadamente 150 milhões de anos – Crédito: Guilherme Simões

BH – Quase 200 anos após ter sido descrita com base em apenas três dentes isolados, uma equipe internacional de cientistas divulgou, pela primeira vez, a anatomia completa, a árvore evolutiva e características do cérebro do Ocnotherium giganteum, uma preguiça-gigante que habitou o Brasil no final do Pleistoceno.

O curador da coleção de paleontologia do Museu de Ciências Naturais PUC Minas, Prof. Dr. Cástor Cartelle, e o biólogo Luciano Vilaboim, integram a equipe de pesquisadores do artigo que foi publicado na prestigiada revista científica Zoological Journal of the Linnean Society em março deste ano e pode ser acessado na íntegra nesse link.

Também assinam a publicação intitulada The Neotropical giant ground sloth Ocnotherium giganteum (Xenarthra: Mylodontinae) from the Late Pleistocene of Brazil: anatomy, palaeoneurology, and phylogenetic relationships os pesquisadores François Pujos, Gerardo De Iuliis, Alberto Boscaini, Dawid A. Iurino, André Strauss e Leonard Tsuji.

HÁBITOS TERRESTRES

Descoberta originalmente na década de 1830 pelo naturalista dinamarquês Peter W. Lund em cavernas calcárias de Minas Gerais, a espécie permaneceu um enigma para a ciência até que, após a recuperação de novos fósseis em cavernas da Bahia (Toca dos Ossos, Toca das Onças e Brejões) e de Minas (Pedra de los Índios e Escrivania), os pesquisadores conseguiram reconstruir o animal com detalhes a partir de um crânio quase completo e dois esqueletos parciais.

De acordo com a pesquisa, o Ocnotherium giganteum era um grande herbívoro quadrúpede, com membros curtos, extremamente robustos e equipados com garras poderosas. A estrutura de seus braços indica uma musculatura com grande capacidade de movimentação, sugerindo que o animal poderia ter comportamentos fossoriais, como a escavação.

PALEONEUROLOGIA

Utilizando tomografia computadorizada (TC) de ponta, os cientistas modelaram o interior do crânio do animal em 3D, reconstruindo o cérebro e outras estruturas anatômicas.

A reconstrução revelou, ainda, que o animal possuía bulbos olfativos consideravelmente grandes, indicando um sentido de faro muito bem desenvolvido.

O estudo da anatomia do ouvido interno (labirinto ósseo) revelou que a orientação de seus canais semicirculares se assemelha mais à dos tatus do que à das preguiças arborícolas modernas, o que sugere que o gigante caminhava com a cabeça voltada para o chão, confirmando as primeiras suposições sobre a sua postura quadrúpede.

CRÂNIO LEVE E MORDIDA COMPLEXA

Apesar de suas dimensões comparáveis a outros animais da megafauna brasileira, a pesquisa identificou que o crânio do Ocnotherium era altamente pneumatizado, ou seja, cheio de cavidades de ar (seios paranasais) que reduziam seu peso e facilitavam os movimentos da cabeça. Ele também apresentava uma “articulação dupla” na mandíbula para se conectar ao crânio – característica extremamente rara que, segundo os pesquisadores, indica um reforço biomecânico para uma mastigação muito potente.

Também foi identificado um longo espaço sem dentes (diastema) único entre as preguiças, e o primeiro dente superior funcionava como uma espécie de canino.

ARMADURA NATURAL

O animal possuía osteodermos – pequenos ossos achatados e de superfície irregular embutidos em sua pele, que funcionavam como uma armadura natural contra predadores.

A pesquisa também realizou uma análise profunda do DNA evolutivo (filogenia) baseada na anatomia do esqueleto, confirmando o Ocnotherium giganteum como um membro da subfamília Mylodontinae e revelando 22 características físicas exclusivas (autapomorfias) que não existem em nenhuma outra espécie de preguiça-gigante conhecida.

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