(*) Fernando Benedito Jr.
O conceito de terrorismo sempre esteve vinculado às ações violentas de caráter político e ideológico de grupos com objetivos bem definidos contra estados, regimes políticos e sistemas econômicos. Neste campo se enquadravam como terroristas grupos como o Baader-Meinhoff que atuou na Alemanha nos anos 70; o IRA, na Irlanda em luta pela independência da Grã-Bretanha; ou o ETA, na Espanha, pela autonomia do País Basco. Em outra escala, muitas vezes como exércitos irregulares, poderiam se enquadrar as guerrilhas latino-americanas, os grupos árabes como Hamas e Jihad Islâmica, sempre com objetivos políticos e táticas como ataques-surpresa, quase sempre com danos colaterais sobre civis, sejam contra alvos humanos ou físicos.
É algo bem diferente de grupos de milicianos, narcotraficantes, ladrões, assassinos, cujas ações se voltam necessariamente para obter ganhos materiais e enriquecimento ilícito, através de ações de banditismo, como tráfico, extorsão, roubos e assassinatos seletivos de adversários em disputas por ponto de drogas, controle de áreas e exploração de comércio ilegal de drogas, cobrança de “proteção” e outros “negócios” estabelecidos pela força das armas e do medo.
A distinção é necessária para esclarecer que tem muito mais identidade com o terrorismo as ações empregadas por EUA e Israel em Gaza, no Irã e no Líbano, do que aquelas que a extrema direita brasileira tenta imputar ao PCC e CV. Não são terroristas na acepção histórica da palavra, são bandidos. E o tratamento, por óbvio, deve ser outro. PCC e CV não ameaçam destruir o estado brasileiro para implantar um outro tipo de sociedade, não lutam por uma causa política e ideológica, não pretendem destruir o World Trade Center, o Pentágono ou a Casa Branca num atentado para demonstrar força, vingança ou reivindicar o que quer que seja.
Então, correr para o colo de Donald Trump, como fez Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo para classificar PCC e CV como organizações terroristas, criar elementos para um discurso de campanha eleitoral, tentando desviar as atenções do escândalo do Casa Master, não resolve absolutamente nada. Não tem qualquer efeito prático. A menos que o efeito prático seja legitimar uma intervenção em assuntos brasileiros – uma nova versão da Lei Magnitsky – e atacar, mais uma vez, a soberania nacional.
Se for isso, mais uma vez se deram mal. A maioria dos brasileiros acha que a classificação dos EUA não muda nada no País e os especialistas em segurança pública condenam a decisão norte-americana, por inócua.
(*) Fernando Benedito Jr. é editor do Diário Popular.



