quinta-feira, julho 9, 2026
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Personagem de si mesma

Por Ivan Alves Filho (*)

Em 1926, aos 36 anos de idade, uma mulher faz as malas, pega seu carro e sai em viagem. Estamos na Inglaterra. Horas depois, seu veículo é encontrado, dentro de um lago. Não há ninguém dentro, nenhum corpo é achado na água.

Seu marido, notificado do acidente, inicia uma busca desesperada por sua mulher. A polícia inglesa investiga o mistério, a imprensa também se debruça sobre o assunto. Há muita especulação em torno daquele desaparecimento: terá sido um assassinato? Um suicídio? Um sequestro? Ou a mulher simplesmente decidiu sumir no mapa?

A escritora britânica de romances policiais e de suspense, Agatha Christie

O fato é que, onze dias mais tarde, a mulher é encontrada em um hotel de luxo localizado no Norte do país. Registrada na recepção do hotel sob outro nome, ela alegou ter perdido a memória, em função do acidente automobilístico. Mas deixou uma pista: o registro em questão foi feito com o nome de Teresa Neele, o sobrenome da amante de seu marido. Ao ser reconhecida por alguém, acabou voltando para casa, em Styles. Seis anos antes, ela publicou seu primeiro romance policial, O misterioso caso de Styles. Mais 65 livros policiais se seguiram a este. Sua experiência como enfermeira durante a Primeira Guerra Mundial a familiarizou com determinadas substâncias, como os venenos.

Mais tarde, casaria, em segundas núpcias, com um arqueólogo, valendo-se dos ensinamentos obtidos pelo convívio com ele em seus próprios trabalhos. Traduzida em mais de cem idiomas, tendo vendido centenas de milhões de livros, sendo ultrapassada apenas pela Bíblia e por William Shakespeare, Agatha Christie, pelo visto, apreciava envolver sua vida em mistérios. Foi personagem dela mesma.

(*) Ivan Alves Filho é historiador

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