(*) Thales Aguiar
Caros leitores há uma disputa política acontecendo acima das nossas cabeças e ela não aparece nos plenários ou nas pesquisas de opinião. Ela se revela no desenho das ruas, na quantidade de árvores de um bairro e no preço da energia elétrica. A sombra deixou de ser conforto. Tornou-se política pública. O calor extremo é a face mais democrática da crise climática apenas na aparência. O termômetro sobe para todos, mas não atinge todos do mesmo modo. Quem mora em uma casa ventilada, trabalha em ambiente protegido e pode pagar a conta de luz tem uma margem de defesa. Quem vive em área impermeabilizada, espera o ônibus no asfalto, trabalha ao ar livre ou depende de um ventilador antigo enfrenta outra espécie de risco. A temperatura é física; a vulnerabilidade, política.
O problema já não é apenas prever quantos graus virão, mas decidir quem será protegido primeiro, com qual orçamento e sob qual responsabilidade. Um alerta meteorológico sem escola preparada, unidade de saúde abastecida e rede de assistência mobilizada é apenas informação. Ciência sem governo é um diagnóstico à espera de consequência. A Califórnia oferece uma pista interessante. Seu Plano de Ação para o Calor Extremo de 2026 reúne cerca de 60 agências e trata o calor como questão de saúde pública, infraestrutura, trabalho, planejamento urbano e justiça social. A emergência climática não cabe na secretaria do Meio Ambiente. Quando cada órgão cuida de uma parte, o cidadão fica exposto no intervalo entre as competências.
O Brasil conhece esse intervalo. Em muitas cidades, arborização é tratada como ornamento; drenagem, como obra emergencial; habitação, como problema separado; e defesa civil, como serviço acionado quando a tragédia já começou. O resultado é uma administração que reage ao desastre, mas não governa o risco. Enquanto isso, os bairros mais pobres acumulam concreto, pouca sombra e transporte precário. O dado internacional dimensiona a escolha. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, os países em desenvolvimento precisarão de até US$ 365 bilhões por ano, em 2035, para financiar adaptação; em 2023, receberam US$ 26 bilhões em financiamento público internacional para esse fim. A conta não é apenas contábil. Quando o dinheiro chega tarde, chega como dívida ou não chega, a política climática protege quem tem recursos e abandona quem tem menos capacidade de esperar.
Para o ciclo climático atual, um relatório do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, projetou até 13,3 mil mortes adicionais no Brasil entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, caso se confirme o cenário de calor associado ao Super El Niño. É uma projeção, não uma contagem de brasileiros já mortos. Transformar previsão em fato consumado seria tão grave quanto ignorar o alerta. A COP31, marcada para novembro, em Antalya, na Turquia, será mais uma oportunidade para anunciar metas. O teste real estará longe dos discursos para saber se governos transformarão compromissos em mapas de risco, árvores mantidas vivas, telhados refletivos, transporte protegido, centros de resfriamento e protocolos que alcancem idosos, crianças, trabalhadores e pessoas em situação de rua. Há uma mudança de linguagem necessária. Não basta dizer que a cidade precisa “se adaptar”. Adaptar para quem? Quem define a obra? Quem mede o resultado? Quem fiscaliza? Quem paga a conta? Quem fica com a sombra? Essas perguntas tornam Adaptação e distribuição de proteção, tempo e dinheiro. A política do futuro talvez seja julgada por algo mais simples do que grandes promessas. Quantas pessoas conseguirão atravessar o verão com segurança? Em uma sociedade aquecida e desigual, oferecer sombra não é gentileza. É uma forma elementar de cidadania.
(*) Thales Aguiar é jornalista e especialista em ciência política



