Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o presidente argentino Javier Milei, foram os articuladores da operação para tirar Flávio Bolsonaro do Brasil
Às voltas com as eleições de meio de mandato e um índice de rejeição que pode acabar com a hegemonia republicana no Congresso norte-americano, o presidente Donald Trump precisa acenar à sua base, principalmente os radicais do MAGA, com gestos mais firmes. Nada melhor que usar um fantoche que obteve milhões de votos no Brasil, a maior democracia da América Latina, pintá-lo como um coitado, perseguido e humilhado após a derrota acachapante, para mostrar o quão generoso seu governo é com aqueles que lhe são próximos, servis e subservientes. Ainda que não leve as terras raras e minerais críticos, já que a derrota de Flávio Bolsonaro é também sua, Trump e seu primeiro secretário e vice-rei da Venezuela, Marco Rubio, tentam agregar mais capital político a seu projeto de dominação. É dos EUA, ao lado do irmão, que Flávio pretende continuar sua jornada contra o Brasil.
INTERFERÊNCIAS
A interferência norte-americana no processo eleitoral brasileiro, atendendo a pedidos dos próprios bolsonaros, Eduardo à frente, começa com o tarifaço, a Lei Magnistisky, a suspensão de vistos de autoridades brasileiras, aporte de recursos na campanha de Flávio, intromissão da Meta e chega ao asilo que será dado ao miliciano e criminoso fugitivo. Sem mandato e imunidade a partir do próximo ano, lhe sobrava poucas alternativas além da prisão. A fuga era a outra saída.
As primeiras informações já davam conta de que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, foi um dos principais articuladores da operação para tirar Flávio Bolsonaro do Brasil.
O empresário e investidor mexicano Simón Levy, que afirma ter ligações com Donald Trump, atribuiu a Rubio a articulação da saída do senador. Levy também declarou que uma operação americana de “proteção” estava em andamento.
OPERAÇÃO ALBA
Ex-secretário de Turismo do México, Simón Levy, publicou uma postagem nas redes sociais na terça-feira (27) relatando que Flávio Bolsonaro teria chegado aos Estados Unidos (EUA), em uma articulação liderada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. A informação da chegada era mentira, uma manobra diversionista. O fugitivo ainda estava em território argentino, de onde só sairia na madrugada rumo a Guayaquil, no Equador, rumo a Miami, evitando o espaço aéreo brasileiro para não ser interceptado. A fuga de Flávio, menos de 48 horas após perder as eleições presidenciais, também já havia sido confirmada pela agência de notícias Reuters.
“Como relatei há algumas horas, Flávio Bolsonaro chegou em segurança aos Estados Unidos. O cérebro por trás dessa operação é o secretário de Estado dos EUA Marco Rubio. Dos Estados Unidos, livre e seguro, Flávio liderará a oposição contra Lula”, escreveu Levy, mentindo para despistar as autoridades brasileiras, a forças de segurança e a imprensa.
A postagem foi feita por volta das 15h30. Em outra publicação, menos de 30 minutos depois, Levy acrescentou que essa fuga recebeu o nome de Operação Alba.
Levy é empresário e advogado e se autodescreve publicamente como um aliado próximo e alguém que serve a Donald Trump e ao movimento MAGA [Make America Great Again, no inglês].
GOVERNO MILEI
A informação divulgada pelo site argentino Infobae de que Flávio Bolsonaro e sua família fugiriam do Brasil cruzando a fronteira de Foz do Iguaçu para Puerto Iguazú, onde embarcariam em um avião da Baires Fly que partiu de Buenos Aires e pousou às 23h45, se confirmou, com 24 horas de atraso. O ex-candidato à presidência já desembarcou em Miami.
Às 22h50 de terça-feira, os quatro membros da família Bolsonaro entraram na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves em um SUV branco, escoltados por uma viatura da polícia argentina. Quarenta minutos depois, embarcaram no mesmo avião que os aguardava desde a noite de segunda-feira, o qual finalmente decolou à 0h21 com destino ao Equador. Todos os detalhes foram divulgados pela Direção Nacional de Migração no início da manhã de hoje (28/10).
Após uma escala em Guayaquil para reabastecer, a aeronave Gulfstream G400 da Fly BA pousou às 10h24 no Aeroporto Executivo de Miami Opa Locka.
A Casa Rosada mentiu para encobrir a operação de fuga de Flávio Bolsonaro, negando que ele tivesse entrado na Argentina. Entretanto, todo o processo estava sendo acompanhado de perto por Luis Caputo, ministro da Economia, que repassava as informações a Javier Milei em tempo real.
Simón Levy, que também é presidente do Conselho Americano confirmou que o papel do presidente argentino, Javier Milei, na saída de Flávio Bolsonaro foi “coordenado com o Departamento de Estado dos EUA, com o secretário Marco Rubio”. Ele também afirmou que os Estados Unidos lhe concederão asilo político.
“Não se trata de um favor pessoal, mas sim de uma decisão geopolítica. Claramente, o governo dos Estados Unidos não está satisfeito (com os resultados das eleições). Donald Trump chamou isso de ‘uma coisa estranha’, mas posso afirmar, como advogado, que a intervenção de uma autoridade como a Suprema Corte, em vez da autoridade eleitoral, interrompendo o segundo turno a 0,25% dos votos por 45 minutos, constitui fraude eleitoral… Estamos diante de uma fraude eleitoral”, disse, Simon Levy, fomentando, sem qualquer prova, um discurso para justificar a fuga do candidato derrotado e acovardado, preparando o terreno para novas investidas golpistas.
APOIO NO BRASIL
Do lado de cá, o advogado falastrão Frederick Wassef, o mesmo que acoitou no sítio de Atibaia o miliciano Fabricio Queiroz, principal operador do esquema de “rachadinha” do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, foi o interlocutor dos movimentos para a fuga. Não é de se duvidar de Wassef, embora seja um moço muito loquaz. O advogado, aliás, foi a última visita recebida por Flávio.
Sabe-se ainda que a fuga não só contou com o apoio do governo de Donald Trump, como era conhecida pelas mais altas instâncias da Casa Branca. O senador teria recebido instruções para seguir à Flórida, nos Estados Unidos, em uma operação iniciada na noite de segunda-feira (26), um dia depois de sua derrota nas eleições presidenciais.
Ao anunciar tão rapidamente a concessão de visto para Flávio Bolsonaro e família, indiretamente, o Departamento de Estado reconhece sua intromissão no caso.
Por outro lado, aliados também afirmam que Flávio pretende solicitar asilo político ao governo Trump. Diferentemente do visto, o asilo envolve um procedimento de proteção internacional cuja aprovação depende da análise das autoridades americanas. Não há confirmação pública de que o pedido tenha sido formalizado ou aceito.
A participação de integrantes da administração americana e do governo argentino na saída de um parlamentar submetido a restrições judiciais brasileiras acrescenta uma dimensão diplomática ao episódio. O esclarecimento dessa participação poderá influenciar a forma como Brasília tratará o caso com Washington e Buenos Aires.
Apesar do risco de atrito, interlocutores do governo Lula avaliam que a situação não deve impedir uma relação pragmática com os dois países. A preservação desse diálogo interessa às negociações comerciais, aos investimentos e à cooperação bilateral, embora não exista evidência de impacto econômico diretamente provocado pela fuga.
Agora, é esperar pelo discurso do fugitivo que, conforme já adiantam seus seguidores, será aquele do ressentimento, da fraude, da perseguição e do vitimismo, para manter acesa a chama do ódio entre seus apoiadores.
(*) Fernando Benedito Jr. é editor do Diário Popular.



