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Com “Memorial dos Palmares”, Deo Garcez segue na luta antirracista através do teatro

Ator leva aos palcos obra de Ivan Alves Filho sobre Quilombo dos Palmares em reparação histórica de heróis e heroínas do povo negro

O livro “Memorial dos Palmares”, do historiador Ivan Alves Filho vai ganhar uma versão teatral através do monólogo homônimo, interpretado pelo ator Deo Garcez, cuja obra teatral busca ir além da simples representação dramatúrgica e joga luz na história e na realidade brasileiras sob o ponto de vista do povo negro. Déo Garcez já interpretou o ex-presidente do Brasil Nilo Peçanha em “A Nobreza do Amor” e Luiz Gama na novela “Nos Tempos do Imperador” e na peça “Luiz Gama: Uma Voz Pela Liberdade”. Ainda este ano estará em cena com a peça “Memorial dos Palmares”, dirigida por Soraia Arnoni, com quem Deo Garcez divide o palco em uma das versões da peça “Luiz Gama: Uma Voz Pela Liberdade”. “Memorial” conta a história e resgata a trajetória do mais importante quilombo do País e de seus principais personagens, traçando paralelos essenciais entre a escravidão no século XIX e a atualidade da luta antirracista contra o preconceito estrutural, a discriminação e a exclusão social.

Deo Garcez na peça “Luiz Gama: Uma Voz Pela Liberdade”

PALCO DE LUTAS

Deo Garcez é conhecido pelos personagens André, de “A Escrava Isaura”; Xande, de “Prova de Amor” e Sr. Morales em “Carrossel”, além de inúmeras outras participações no cinema e na TV, mas é no teatro que parece se sentir à vontade para expressar sua arte. “Além desta questão da luta antirracista através do teatro, é uma luta de recuperação histórica, da nossa história afrodescendente e de recuperação de heróis e heroínas negras e negros brasileiros – e Memorial dos Palmares vem ao encontro desta minha missão de anos através da arte. De reparação histórica destes negros e negras que foram ao longo da historiografia oficial brasileira apagados intencionalmente durante estes séculos todos”, sublinha Deo Garcez.

PRODUÇÃO

O ator que completa 50 anos de carreira no teatro, cinema e televisão adianta que o texto de “Memorial dos Palmares”, cuja versão para o teatro foi feita pelo próprio autor Ivan Alves Filho, com sua assessoria nos aspectos dramatúrgicos, é um monólogo que apresenta a obra histórica ao público através de leituras, ao mesmo tempo em que contém representações. Ainda sem data exata para estrear e sem patrocínio, Garcez diz que vai tocar o projeto mesmo sem a captação de recursos financeiros. “Isto de ficar esperando o momento ideal, o patrocínio ideal, não funciona, acaba atrasando e, às vezes, nem se faz”, diz ele, a exemplo de outras experiências que foram ao palco mesmo sem patrocínio, como foi o caso de “Luiz Gama: Uma Voz Pela Liberdade”.

A repercussão da peça teatral sobre Luiz Gama, aliás, resultou no convite para interpretá-lo na novela “Nos Tempos do Imperador”. “A Globo me chamou para protagonizar o próprio Luiz Gama porque tinham me visto no teatro”, diz Deo.

O presidente Nilo Peçanha foi interpretado por Deo Garcez em “A Nobreza do Amor”

PRESIDENTE NEGRO

Ele conta que também protagonizou o presidente Nilo Peçanha em “A Nobreza do Amor”. “Trata-se do único presidente negro que o Brasil já teve, e do qual pouquíssimas pessoas já ouviram falar ou conhecem sua história”, sublinha.

Nilo Peçanha governou o Brasil no período 1909-1910, após a morte de Afonso Pena, de quem era vice. Peçanha é patrono da educação profissional e tecnológica no Brasil. Em 1889 Nilo participou de campanhas abolicionistas. Filho de uma família humilde, estudou no Colégio Pedro II, em Campos de Goytacazes, na Faculdade de Direito de São Paulo e formou-se na Faculdade do Recife. Foi eleito para a Assembleia Constituinte em 1890 e em 1903 foi eleito sucessivamente senador e presidente do Estado do Rio de Janeiro. Em 1906 foi eleito vice-presidente de Afonso Pena.

Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas

MEMORIAL DOS PALMARES

Sobre a peça “Memorial dos Palmares”, Deo Garcez diz que sua transposição para o palco começa narrando o processo de construção do próprio livro sobre o Quilombo e tudo que representa Zumbi e outros personagens no processo de construção de Palmares até a morte de seu principal líder, Zumbi. “A peça contextualiza esta história para o mundo de hoje, destacando a importância de recuperar e fazer uma reparação ao próprio Zumbi, a Palmares e tudo que ele representa”.

“É uma história bem abrangente que as pessoas precisam conhecer. Assim como precisam conhecer a sociedade altamente organizada que era Palmares e que não tinha somente a preocupação com a abolição. Também tinha uma grande relevância social, que abrigava a todos e eu fiquei entusiasmado com esta história, porque já venho nesta pegada com o Luiz Gama, que contextualiza para o Brasil de hoje a equidade para o povo preto, o combate contra o racismo, a exclusão e assim será também com Memorial”, exulta o ator.

Restaurante coletivo no Quilombo dos Palmares

SOBRE DEO GARCEZ

Deo Garcez concluiu o curso de bacharelado em interpretação teatral pela Fundação Brasileira de Teatro em 1987. Em 1989, concluiu o de Licenciatura Plena em Artes Cênicas. Em 1995, no Rio de Janeiro, concluiu o Curso de Interpretação Teatral, com o diretor Antunes Filho na Casa das Artes de Laranjeiras.

Na televisão atuou em “Você Decide”, “O Gosto da Vingança”, “Xica da Silva”, “Mandacaru”, “Ô… Coitado!”, “O Cravo e a Rosa”, “Canavial de Paixões”, “A Escrava Isaura”, “O Outro Lado do Paraíso”, entre outras obras. No cinema atuou em “O Diário de Júlia”, “O Outro Lado da Rua”, “Brasília 18%”, “O Lobisomem de Pedra de Fogo” e vários outros filmes. No teatro interpretou Luiz Gama em “Luiz Gama: Uma Voz Pela Liberdade” e o ex-presidente Nilo Peçanha em “A Nobreza do Amor”

DO LIVRO AOS PALCOS

O autor do ensaio histórico “Memorial dos Palmares”, Ivan Alves Filho, embora tenha feito sua primeira incursão no teatro ao verter o livro para a dramaturgia, diz que não considerou a tarefa penosa.

“Tendo conhecimento do assunto não é tão difícil e eu pesquisei muitos anos, então, não foi complicado”, diz Alves filho, que iniciou as pesquisas para Memorial dos Palmares há 51 ano. “Este tema me perseguiu. Comecei em 1975, quando eu estava fora do país. Estudava na França e ia a Portugal pesquisar no Arquivo Histórico Ultramarino, logo após a Revolução dos Cravos. Até então o museu estava fechado pela ditadura do salazarismo que durou 48 anos. O salazarismo sufocava as informações sobre as antigas colônias porque não queria dar publicidade às revoltas que existiram e continuaram a existir naqueles anos, como em Angola e Moçambique, contra o domínio colonial, e não queriam estimular estes movimentos”.

Ivan Alves Filho diz que a primeira edição de “Memorial dos Palmares” foi publicada em 1978 e atualmente está na 4ª edição.

“As lutas em Palmares começaram em 1596 e estenderam até 1726, foram 130 anos de lutas e confrontos, na maior luta antiescravagista das Américas; Nem Spartacus demorou tanto. O quilombo era multiétnico: tinha negros, brancos, mulatos, índios. Tinha mulheres em unidades de comando político-militar da época, como era o caso de Acotirene, que chefiava um quilombo. Havia um índio, João Tapuio, que chefiava outro quilombo. Então, Palmares anunciava um Brasil multiétnico formado por conta própria.

Foi muito revelador do entrelaçamento racial, do Brasil às avessas, já caminhando no sentido de uma unidade cultural dos desvalidos”, conta Ivan Alves Filho.

Ivan Alves Filho pesquisa o Quilombo de Palmares há mais de cinco décadas: “Este tema me persegue”

SOBRE O AUTOR

Nascido no Rio de Janeiro, em 1952, e morador de Tiradentes (MG), Ivan Alves Filho é historiador, diplomado pela Universidade Paris-VIII e pós-graduado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. É autor de 24 livros, entre os quais “Memorial dos Palmares”, “Brasil, 500 Anos em Documentos”, “Cozinha Brasileira (Com recheio de História)” e “Velho Chico Mineiro”. Participou de oito outros livros de caráter coletivo, um dos quais editado pela Unesco, em Portugal. Lançou, em 1998, juntamente com o historiador Nelson Werneck Sodré, o livro “Tudo é Política”.

Ivan Alves Filho é pesquisador com trajetória dedicada ao estudo da história social, política e cultural do Brasil. Há mais de cinco décadas desenvolve pesquisas aprofundadas sobre o Quilombo dos Palmares, tema ao qual se dedica desde 1975, com investigações em arquivos e bibliotecas do Brasil, de Portugal e da França.

Autor do livro Memorial dos Palmares, atualmente em sua quarta edição, Ivan Alves Filho consolidou a obra como uma referência internacional sobre o tema, presente em dezenas de bibliotecas brasileiras e em mais de 50 bibliotecas estrangeiras. A obra recebeu reconhecimento institucional da Unesco por sua relevância para o conhecimento histórico e para a preservação da memória da luta contra a escravidão.

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