Formado na equipe Tokugawa Brasil, sob orientação do sensei Pablo D’ávila, atleta de 34 anos transformou as artes marciais em caminho de autonomia, conquistas, desenvolvimento pessoal e celebra trajetória de inclusão
IPATINGA – Aos 34 anos, Tiago Fernandes Ramos acaba de alcançar uma das graduações mais simbólicas das artes marciais, a faixa-preta de Jiu-Jitsu. Atleta com deficiência visual, pai de família e praticante de Judô e Jiu-Jitsu há quase duas décadas, ele recebeu a nova graduação no dia 20 de agosto de 2026, pela equipe Tokugawa Brasil.
A conquista é resultado de uma trajetória marcada por dedicação, técnica, disciplina e, sobretudo, pela oportunidade de viver o esporte em um ambiente de inclusão real. Tiago treina na Tokugawa Brasil, academia de Judô e Jiu-Jitsu onde iniciou sua caminhada aos 16 anos, sob a orientação do sensei Pablo D’ávila.
Para o atleta, o Jiu-Jitsu se tornou uma ferramenta de transformação. Mais do que aprender posições, golpes e estratégias de combate, ele encontrou no tatame um espaço de pertencimento, convivência, desenvolvimento e confiança em suas próprias capacidades.
“Com 16 anos aconteceu uma mágica na minha vida. Um amigo, o Ivani, me convidou para treinar Judô e Jiu-Jitsu na equipe Tokugawa Brasil. Foi onde conheci meu professor, o sensei Pabllo D’ávila, e vi que tudo aquilo que a gente quer é possível”, relata Tiago.
Uma jornada de reconstrução e conquistas
A história de Tiago com a deficiência visual começou ainda na infância. Aos nove anos, ele enfrentou um quadro de estrabismo que exigia cirurgia urgente. O procedimento, porém, foi realizado cerca de um ano depois, período em que ele desenvolveu descolamento de retina. Aos 11 anos, Tiago perdeu totalmente a visão.
Na adolescência, em uma fase de importantes mudanças pessoais e sociais, o convite para conhecer as artes marciais abriu uma nova perspectiva. Na Tokugawa Brasil, encontrou acolhimento e incentivo para participar de todas as atividades que estivessem ao seu alcance, treinando lado a lado com atletas que enxergam.
“Ali eu conheci uma inclusão de verdade. O sensei sempre me incluiu nas atividades da academia. Em tudo o que eu podia fazer, eu estava incluído. Isso foi muito bom para mim e muito importante para o meu desenvolvimento naquela fase da adolescência”, pontuou o atleta.
A partir do ingresso na equipe, Tiago passou a se dedicar aos treinamentos e a competir. Sua evolução no esporte o levou a resultados expressivos. O atleta foi campeão mineiro, campeão nacional e vice-campeão brasileiro de Jiu-Jitsu. Em sua trajetória competitiva, enfrentou atletas sem deficiência visual, demonstrando preparo técnico, persistência e capacidade de adaptação dentro do esporte.
A faixa-preta, recebida nesta última semana, representa mais um marco em uma história construída dia após dia. Para Tiago, a graduação não simboliza um ponto final, mas o início de uma nova etapa de aprendizado.
“A faixa-preta é uma graduação que todos que praticam arte marcial desejam alcançar. Chegar até aqui sendo cego total, treinando com pessoas que enxergam e em um lugar que me deu essa condição, é algo muito importante para mim. É um novo recomeço”, destaca Tiago.
Esporte como instrumento de inclusão e autonomia
A trajetória de Tiago reforça a importância do esporte acessível e da presença de ambientes preparados para acolher pessoas com deficiência com respeito, estrutura e oportunidades reais de participação.
Nas artes marciais, valores como disciplina, concentração, equilíbrio, respeito e autocontrole são trabalhados continuamente. Para pessoas com deficiência, a prática esportiva também pode contribuir para a autonomia, a ampliação das relações sociais, a confiança e o fortalecimento da autoestima.
Para o professor da equipe, Pablo D’ávila, a inclusão, nesse contexto, não está apenas em permitir a presença de um atleta no espaço de treino, mas em assegurar condições efetivas para sua participação, aprendizado e evolução. “Foi essa experiência que Tiago encontrou na Tokugawa Brasil e que considera determinante para sua formação dentro e fora dos tatames. O Tiago não teve um tratamento diferenciado dos outros atletas, mas um trabalho assistido. Aprender posições de jiu-jitsu, apenas ouvindo e repetindo os exercícios com os parceiros de treino, é sempre mais difícil, mas não o impediu de progredir”, disse o professor.
Hoje, além de atleta, Tiago é pai da pequena Poliane, de um ano e quatro meses. Ele vive com a esposa e a filha e reconhece que os ensinamentos recebidos ao longo da prática das artes marciais continuam presentes em sua rotina familiar e pessoal.
“Os ensinamentos do sensei e da equipe me ajudaram muito em todo o processo da minha vida. Agora, sendo pai, tenho certeza de que vão continuar ajudando”, afirma o lutador.
Uma mensagem para quem busca novos caminhos
A conquista da faixa-preta por Tiago Fernandes é motivo de celebração para a comunidade esportiva e uma referência para atletas com deficiência que desejam iniciar ou seguir uma trajetória no esporte.
Sua história evidencia que a deficiência não define o potencial, os objetivos ou as conquistas de uma pessoa. Com acesso, respeito, treinamento e persistência, o esporte pode abrir caminhos e transformar vidas.
“Quero dizer para as pessoas que todo mundo tem condição e todo mundo é capaz. Mas é preciso querer, persistir e treinar. A arte marcial pode mudar e transformar muitas vidas, inclusive a vida da pessoa com deficiência, porque é onde você se sente incluído e capaz de realizar aquilo que precisa ser realizado”, declara Tiago.
Com a faixa-preta conquistada, o atleta celebra o reconhecimento por sua caminhada, mas mantém o foco no futuro. “A luta continua, a caminhada continua. Estou muito feliz com essa graduação”, conclui.
Sobre a Tokugawa Brasil
A Tokugawa Brasil é uma academia de Judô e Jiu-Jitsu dedicada à formação esportiva e humana de seus alunos. Sob orientação do sensei Pablo D’ávila, a equipe promove o ensino das artes marciais com foco em técnica, disciplina, respeito, desenvolvimento pessoal e inclusão.



