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Cidadão do mundo

Autor de um dos livros mais impressionantes que li na vida, “A invasão da América Latina”, editado pela Civilização Brasileira, do saudoso Ênio Silveira, o jornalista e professor John Gerassi já nasceu como cidadão do mundo.

(*) Por Ivan Alves Filho

Eu explico. Seu pai era um judeu sefardita, natural de Istambul, e tinha o espanhol como língua materna. Era pintor de profissão, e ninguém menos do que Pablo Picasso o tinha em alta consideração profissional. Fernando Gerassi, este o seu nome, lutou na Guerra Civil espanhola, pelas Brigadas Internacionais comandadas pelo comunista italiano Palmiro Togliatti, chegando a ser um dos generais do Exército Republicano. Sua mulher, a escritora Stephania Awdykowicz, nasceu na Ucrânia. Quanto ao filho, John, este veio ao mundo em Paris, e se consagrou como correspondente internacional do prestigioso New York Times. Foi um profundo conhecedor não só da realidade latino-americana e estadunidense, como também da cultura francesa: John Gerassi herdou do pai a amizade de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

Edição de “Conversando com Sartre”, de John Gerassi

Aliás, Sartre se inspirou em Fernando Gerassi em sua trilogia “Os caminhos da liberdade”, retratando-o como o combatente Gomez. Em tempo: John Gerassi escreveu um livro, “Entretiens avec Sartre” (Conversações com Sartre). Nesta obra, perguntou a Jean-Paul Sartre, a determinada altura, o seguinte: “Como o senhor conseguia, com toda essa feiura, seduzir tantas mulheres?” Em outro momento da conversa, disse também a Sartre, não sem uma certa ousadia também: “O senhor tentou reunir comunismo e existencialismo. Mas não obteve êxito!” Eis a resposta de Sartre, até certo ponto surpreendente, e mesmo lacônica: “Pois é, eu fracassei.”

Seja como for, John Gerassi, que também possuía a cidadania norte-americana, tornou-se amigo pessoal de ninguém menos do que o célebre revolucionário argentino-cubano Ernesto Che Guevara, durante o período em que esteve na ilha caribenha. À sua maneira, John Gerassi se esforçou – talvez inconscientemente, e certamente pelas relações de amizade – para juntar comunismo e existencialismo. O jornalista morreu nos Estados Unidos, no dia 26 de julho, data associada ao início da Revolução Cubana, quando Fidel Castro e seus companheiros atacaram o Quartel Moncada, em plena ditadura de Fulgencio Batista. Nasceu, viveu e morreu como cidadão do mundo.  

(*) Ivan Alves Filho, historiador.

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