Festival Literário transforma a obra de Drummond em debate sobre o Brasil contemporâneo; maior edição dos seis anos do Festival reúne 40 mil pessoas, vende mais de 3 mil livros e alcança 2,8 milhões de visualizações digitais, com programação marcada pela literatura, pelo antirracismo e pela defesa da democracia
ITABIRA – O 6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira encerrou sua programação no domingo, 1º de novembro, com os maiores resultados de sua história. Em quatro dias, 40 mil pessoas participaram das atividades realizadas no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e em seu entorno, um crescimento de 33,3% em relação a 2025. A Livraria do Festival vendeu mais de 3 mil livros, enquanto a comunicação digital alcançou mais de 3 milhões de visualizações, apenas no Instagram. O Prêmio de Redação chegou a quase 90% da rede escolar pública e privada. A 7ª. edição já está confirmada para o período entre 27 e 31 de outubro, lembrando os 40 anos de morte de Carlos Drummond de Andrade.
TEMA
Com o tema “A Máquina do Mundo em Nós”, em homenagem aos 75 anos de Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, o Festival reuniu escritores, artistas e intelectuais para discutir literatura e questões centrais do Brasil contemporâneo.

CONVIDADOS
A programação recebeu Conceição Evaristo, Leda Maria Martins, Maria Mazzarello, Pedro Bial, Geraldo Carneiro, José Miguel Wisnik, Sérgio Abranches, Carla Akotirene, Rita Von Hunty, Fabrício Carpinejar, Marcelino Freire, Octavio Guedes, Geni Núñez, Ricardo Aleixo, Énia Lipanga, Ale Santos e Roberto Parmeggiani, entre outros convidados. As conversas percorreram temas como racismo, democracia, ancestralidade, direitos humanos e transformações sociais, tendo a literatura como ponto de partida.
PONTO ALTO
Um dos pontos altos do 6º Flitabira foi a participação de José Miguel Wisnik, que apresentou, ao lado do músico Kristoff Silva, a aula-espetáculo “A Máquina do Mundo em Nós”, no sábado, 31 de outubro, data em que se comemoraram os 124 anos de nascimento de Carlos Drummond de Andrade. Diante do público reunido no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, Wisnik conduziu uma interpretação literária e musical do poema que inspirou o tema do Festival, aproximando a obra de Drummond das inquietações do mundo contemporâneo.
Autor de Maquinação do Mundo – Drummond e a Mineração, Wisnik estabeleceu um diálogo entre a poesia, a paisagem de Itabira e a história da exploração mineral, mostrando como a experiência do poeta com sua cidade natal atravessa sua visão de mundo. A apresentação ganhou significado especial por acontecer justamente em Itabira, território fundamental para a compreensão da obra drummondiana. Ao combinar análise literária, música e interpretação poética, Wisnik e Kristoff Silva ofereceram ao público uma das experiências mais representativas da sexta edição, sintetizando a proposta de revisitar Claro Enigma 75 anos depois de sua publicação.
PARTICIPAÇÃO ESCOLAR
O Prêmio de Redação e Desenho mobilizou 45 escolas, correspondentes a quase 90% da rede escolar de Itabira. Foram inscritas 60 redações e 51 desenhos, incluindo trabalhos de estudantes da Educação de Jovens e Adultos. Inspirados no tema “A Máquina do Mundo em Nós”, os participantes desenvolveram interpretações próprias da obra de Drummond. A premiação, realizada em 31 de outubro, reuniu estudantes, professores e familiares, reafirmando a importância da leitura e da escrita na formação escolar. A programação infantojuvenil incluiu oficinas, contação de histórias, espetáculos e encontros com escritores. No encerramento, Paula Pimenta conversou com leitores e apresentou A Música da Minha Vida – Volume 1, atraindo especialmente o público jovem.
MEMÓRIA NEGRA
O Festival recebeu ainda a exposição Correspondências: memória, imagem e presença, do projeto Memorial Vale Itinerante. Desenvolvida pela LAVA – Núcleo de Criação e Pesquisa, a mostra apresentou fotografias históricas, releituras artísticas e cartas narrativas sobre a presença negra na formação de Poços de Caldas. A exposição estabeleceu um diálogo com os debates sobre ancestralidade e antirracismo presentes na programação, ampliando o espaço dedicado às artes visuais e à preservação da memória.
BIBLIOTECA DIGITAL
A sexta edição contou também com a participação do Ministério da Educação, que apresentou ao público o MEC Livros, plataforma gratuita de biblioteca digital com mais de 25 mil títulos e mais de um milhão de usuários cadastrados. Um totem interativo instalado no Festival permitiu que estudantes, professores e visitantes conhecessem o acervo de obras brasileiras e internacionais, com orientação de mediadores. A iniciativa ampliou a dimensão educativa do Flitabira ao aproximar o público das políticas nacionais de democratização do acesso ao livro, associando tecnologia e formação de leitores.
MULHERES
Um dos encontros mais significativos reuniu Conceição Evaristo, Leda Maria Martins e Maria Mazzarello, homenageadas desta edição. Na mesa “Leitura, Antirracismo e os Novos Tempos”, mediada por Afonso Borges, as três reconstruíram uma história de amizade e colaboração que ajudou a transformar a literatura negra brasileira.
Conceição chamou as companheiras de “comadres” e destacou a coragem de Mazzarello ao fundar, em 1981, uma editora comprometida com a publicação de autores negros. A Mazza Edições lançou Ponciá Vicêncio, primeiro romance de Conceição, em 2003, e, posteriormente, Becos da Memória. Leda recordou a importância da editora na circulação do pensamento negro e sua participação na publicação de Afrografias da Memória.
A conversa também destacou a importância da universidade pública na formação intelectual das três. Leda defendeu o ensino superior gratuito e seu papel na democratização do conhecimento. O encontro mostrou como relações de confiança e solidariedade contribuíram para abrir caminhos a uma produção literária historicamente marginalizada.



