Protagonista fala sobre processo criativo do espetáculo infantojuvenil “Cabe Tanta Coisa”
FABRICIANO – O racismo não começa na vida adulta. Ele se manifesta cedo, de forma silenciosa, disfarçado de brincadeira, de apelido ou de omissão institucional. É a partir dessa constatação que nasce o espetáculo infantojuvenil “Cabe Tanta Coisa”, com estreia prevista para abril, em São Paulo. A obra é construída a partir das experiências vivenciadas pelo ator Gustavo Nascimento e o dramaturgo Matí Lima como educadores populares atuantes em escolas de Ipatinga, e que propõe um olhar direto e sensível para o racismo estrutural presente no ambiente escolar.
Ator, produtor e diretor geral do Negrume – Coletivo de Pesquisa em Teatralidades Negras, o fabricianense Gustavo Nascimento parte de memórias pessoais para construir a cena. “Falar sobre racismo na infância é reconhecer que pessoas pretas já convivem com a violência racial desde muito cedo”, afirma.
RACISMO E HOMOFOBIA
Gustavo estudou parte da infância em escola particular e lembra de ser o único aluno negro da sala. “Eu já sentia a homofobia de forma muito intensa, por ser uma criança afeminada. Mas o racismo também estava ali, disfarçado. Disfarçado de brincadeira, de apelido, e principalmente no silêncio da gestão da escola diante de situações que eram violentas”, relembra.
Durante o processo de criação de Cabe Tanta Coisa, o artista revisitou essas lembranças e se deparou com uma das primeiras situações de racismo de que tem memória. Ainda criança, com menos de oito anos, participava ativamente das atividades artísticas da escola. Em uma apresentação de final de ano, a turma encenaria uma música da dupla Patati Patatá que fazia referência a Macacos. Gustavo foi separado do grupo e designado para interpretar justamente o “macaco”.
“Eu era uma criança negra, numa escola gerida por pessoas brancas, onde eu era o único ou um dos poucos alunos negros. Na época, não havia qualquer debate sobre negritude. Mas isso não isenta a responsabilidade de quem ocupava aquele lugar de poder”, reflete.
REPETIÇÃO
A situação ganhou outro contorno quando a mãe de Gustavo assistiu a um ensaio e viu o filho representando um macaco diante de um grupo majoritariamente branco. No dia seguinte, ele foi retirado da apresentação. “Naquele momento, ela talvez não tivesse elaborado aquilo como racismo, mas sentiu que havia algo profundamente errado”, conta o ator.
Anos depois, já adulto, Gustavo se deparou com uma notícia que ecoou diretamente essa memória. Em 2022, a mãe Stephanie Silva denunciou um episódio ocorrido no Centro Educacional Infantil (CEI) Monte Carmelo II, na Zona Leste de São Paulo. Durante uma comemoração temática, seu filho, que havia ido fantasiado de palhaço, apareceu em um vídeo publicado pela escola usando uma máscara de macaco, enquanto outras crianças cantavam uma música com o refrão: “você virou um macaco”. A escola negou o caráter racista da ação.
“É uma situação terrível. Essa notícia reafirma que o que vivi não é um caso isolado. É uma estrutura que se repete, atravessando gerações”, afirma Gustavo.
GESTO ARTÍSTICO E POLÍTICO
É nesse ponto que Cabe Tanta Coisa se inscreve como gesto artístico e político. Voltado ao público infantojuvenil, o espetáculo não busca suavizar o tema, mas tratá-lo com responsabilidade, escuta e sensibilidade. A proposta é criar espaço para diálogo, reconhecimento e elaboração coletiva, envolvendo crianças, educadores e famílias.
A montagem é uma realização do NEGRUME – Coletivo de Pesquisa em Teatralidades Negras, que desenvolve trabalhos comprometidos com a investigação estética e política das experiências negras no Brasil. Para Gustavo, o coletivo tem sido fundamental na construção de um teatro que dialogue com o presente sem abrir mão da memória.
“Vir do interior de Minas e estrear um espetáculo em São Paulo, falando de infância, racismo e educação, é uma espécie de fundação nos nossos modos de criação, é também afirmar que nossas histórias importam e, além de poder, precisam ocupar outros espaços”, destaca o artista.
SEM NEUTRALIDADE
Com Cabe Tanta Coisa, Gustavo Nascimento reafirma que não há neutralidade possível diante do racismo — e que, como ele próprio resume, “não há nada mais deselegante do que ser racista”.
Para acompanhar de perto o processo de criação de Cabe Tanta Coisa, seus desdobramentos pedagógicos, artísticos e os caminhos que vêm sendo construídos até a estreia, convidamos o público a seguir e se conectar com o coletivo pelo Instagram @negrumeteatro. Por lá, compartilhamos bastidores, reflexões, encontros e atravessamentos que fazem do espetáculo não apenas uma obra cênica, mas um processo vivo de escuta, diálogo e transformação.



