A falência da área central é o sintoma mais visível de uma política da destruição que atinge toda a cidade e tende a continuar até à bancarrota final com as escolhas políticas que a população tem feito
(*) Fernando Benedito Jr.
A visível falência urbanística, paisagística, arquitetônica, cultural e comercial do centro de Ipatinga, motivo de inúmeros artigos aqui neste Diário Popular, chega a um ponto de derrocada fácil de constatar. Até os comerciantes resolveram se manifestar contra o estado de abandono. Eles que, conservadores, sempre fizeram vistas grossas para um problema que cedo ou tarde iria lhes atingir em cheio.
O estado crítico do centro da cidade pode ser medido por dois ângulos. Um deles é a destruição provocada pela administração municipal ao se verificar a situação de prédios públicos entre os quais o da própria Prefeitura, cuja obra de reforma, após anos, ainda está lá, apenas lá, como a das igrejas que precisam do óbulo dos fieis para seguir adiante. A transferência “temporária” do prédio implicou ainda na significativa redução do comércio da área central, já que os funcionários públicos movimentavam grande parte das compras. Veja-se também o prédio da Estação Qualifica, próximo ao camelódromo, o próprio camelódromo, as ruas e avenidas, o horroroso emaranhado do sistema de iluminação pública, o antigo Restaurante Popular, o sistema viário. Um tapa-buraco, uma mão de cal aqui outra ali, um remendo, foi o que se fez no atual mandato, outorgado pela segunda vez pelo povo da cidade com votação extraordinária, portanto, igualmente responsável pela destruição.
Outro ângulo é o da comparação com outras iniciativas como o prédio do Poder Judiciário, ao lado da Prefeitura, que, começado do zero, já está praticamente pronto em muito menos tempo. Ou seja, a gestão do governo municipal em termos de obras públicas é de uma incompetência lamentável. E não é só problema orçamentário, porque quando se tinha orçamento o governo não sinalizou com nenhuma intervenção significativa. A única foi a reforma do prédio da Prefeitura. E nada.
Interessante comparar ainda com a impressionante verticalização, que, sob o argumento de geração de emprego e renda, tem impacto desastroso, mas segue em ritmo vertiginoso, sem qualquer contrapartida, com todo o apoio do governo local. Esta ocupação desmedida em nome do desenvolvimento e do progresso (de uns poucos) aumenta a carga de esgoto, de energia elétrica, torna o trânsito inviável, mas segue acelerada.
Isso, sem falar no caos da saúde pública, nos inúmeros problemas da área educacional, no endividamento descontrolado, etc.
É nesta toada que Ipatinga, a “cidade aberta” vai se fechando em si mesma, vai se autodestruindo de maneira autofágica, ao que parece sem que as pessoas percebam. Entretanto, são as pessoas e não os prédios que escolhem os governantes, e as pessoas de Ipatinga, muitas delas, tem feito escolhas cada vez piores. Os números nas urnas nas últimas eleições deixam isso claro.
De maneira que, a seguir neste ritmo, ainda vai ter muito ainda para destruir.
(*) Fernando Benedito Jr. é editor do Diário Popular.



