terça-feira, setembro 29, 2026
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Do Vale do Aço à Bienal de São Paulo: uma história de literatura, superação e inclusão

Participar pela primeira vez da Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi mais do que realizar um sonho. Foi a oportunidade de transformar uma trajetória marcada por desafios em uma mensagem de inclusão, acessibilidade e esperança

Por Wanderson Martins (*)

Alguns sonhos começam muito antes de se tornarem realidade.

A minha participação na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2026, começou muito antes de eu chegar ao Distrito Anhembi. Começou na infância, nas experiências vividas, nos desafios enfrentados, na minha família, na escola e nas pessoas que, em diferentes momentos da minha trajetória, acreditaram que eu poderia ir além das limitações que os diagnósticos clínicos, condições estruturais, muitas vezes, a sociedade, coloca sobre uma pessoa com deficiência.

Por isso, estar na Bienal pela primeira vez não representou apenas ter a oportunidade de ir à São Paulo. Não significa somente a presença de um escritor em um grande evento literário. Para mim, aquele momento carregava uma história inteira.

Sou escritor, palestrante e analista educacional, com atuação na área da Educação Especial na perspectiva inclusiva. Ao longo da minha caminhada profissional e pessoal, fui compreendendo que a inclusão não pode ser apenas um discurso. Ela precisa acontecer na prática, nos espaços educacionais, culturais, profissionais e sociais.

Foi com esse sentimento que vivi os dias 8 e 9 de setembro de 2026, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

No dia 8, participei do momento de reconhecimento promovido pela Editora Novos Autores do Brasil, ao lado de centenas de autores. No dia seguinte, 9 de setembro, vivi um dos momentos mais importantes da minha trajetória literária: o lançamento oficial do livro “Resiliência e Superação: Jornada de Quem Enxerga Além”.

A obra é coletiva e reúne sete autores com deficiência visual, do Brasil e de Portugal. Ao lado de André Tiago, Cinthya Pereira, Lidia Dias, Ricardo Motta e Sérgio Balsante, tive a oportunidade de compartilhar não apenas a autoria de um livro, mas histórias que mostram que a deficiência não precisa determinar o tamanho dos sonhos de uma pessoa.

Wanderson (último à direita) e os demais autores da obra coletiva: André Tiago, Cinthya Pereira, Lidia Dias, Ricardo
Motta e Sérgio Balsante

O lançamento teve um significado ainda maior porque minha família esteve presente.

Meu irmão, minha cunhada e meu sobrinho estiveram comigo naquele momento e representaram a presença de toda uma família que também faz parte dessa caminhada. Para mim, esse foi o maior de toda a Bienal.

A literatura, naquele instante, deixou de ser apenas uma atividade individual. Tornou-se encontro, memória, reconhecimento e possibilidade.

Quando uma conquista individual se transforma em uma causa coletiva

Voltei da Bienal com a certeza de que essa experiência não poderia terminar com o encerramento do evento.

A participação em um espaço de tamanha dimensão literária também me fez pensar sobre quantas pessoas com deficiência ainda encontram barreiras estruturais e atitudinais para chegar aos espaços de cultura, educação, trabalho e participação social.

Durante a Bienal, pude vivenciar situações positivas, encontros marcantes e oportunidades importantes. Mas também percebi que ainda precisamos avançar muito quando falamos de acessibilidade.

Quando uma pessoa com deficiência consegue chegar a determinado lugar, isso é importante. Mas é preciso perguntar também: ela conseguiu participar com autonomia? Encontrou as condições necessárias? Foi ouvida? Pôde ocupar aquele espaço de maneira digna e plena?

Essas perguntas precisam fazer parte da nossa cultura de inclusão.

A Educação Especial precisa estar no centro dessa conversa

Como analista educacional, tenho acompanhado de perto os desafios relacionados à Educação Especial e à inclusão.

A escola tem um papel fundamental nesse processo. É nela que muitas crianças e adolescentes começam a descobrir suas possibilidades, desenvolver autonomia e compreender que suas diferenças não diminuem seu valor.

Por isso, falar de inclusão é também falar de professores preparados, famílias acolhidas, acessibilidade, políticas públicas, recursos adequados e, principalmente, de uma mudança de olhar.

A pessoa com deficiência não deve ser vista apenas a partir daquilo que precisa. Ela precisa ser reconhecida também por aquilo que pode criar, produzir, ensinar, escrever, liderar e transformar.

A minha presença na Bienal representa, nesse sentido, muito mais do que uma conquista pessoal. É também uma mensagem para estudantes, famílias, educadores e para toda a sociedade: pessoas com deficiência precisam estar nos espaços de produção cultural, intelectual e profissional não apenas como público, mas também como protagonistas.

Do sonho ao próximo capítulo

A Bienal de São Paulo foi minha primeira experiência nesse grande encontro da literatura brasileira. Levo dela encontros, aprendizados, registros, amizades, reconhecimento e novas oportunidades.

Também levo uma responsabilidade. A responsabilidade de fazer com que essa experiência alcance outras pessoas.

Quero que a história da minha trajetória possa chegar às escolas, às famílias, aos educadores e aos espaços onde a inclusão ainda precisa deixar de ser apenas uma intenção para se tornar realidade.

Minha história começou muito antes da Bienal. E, de certa forma, a Bienal também abriu um novo capítulo.

Porque um sonho realizado não precisa ser o ponto final de uma trajetória. Pode ser o ponto de partida para novos sonhos e, principalmente, para novos compromissos.

Se a literatura tem o poder de transformar pessoas, ela também pode ajudar a transformar a maneira como enxergamos a deficiência.

E talvez seja esse o maior sentido de enxergar além: não olhar apenas para aquilo que uma pessoa é capaz de fazer apesar das barreiras, mas trabalhar para que essas barreiras deixem de existir.

Do Vale do Aço à Bienal de São Paulo, levo comigo uma convicção: quando a inclusão abre caminhos, pessoas que antes eram vistas apenas pelas suas limitações podem ocupar o lugar que também lhes pertence — o lugar de protagonistas de suas próprias histórias.

(*) Wanderson Martins é escritor, palestrante e analista educacional

Transformando pessoas, inspirando vidas.

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