segunda-feira, janeiro 12, 2026
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Ouro, petróleo e poder

Por que o mundo girou e a Venezuela parou?

(*) Mauro Falcão

Você já se perguntou por que o dólar exerce tamanho domínio sobre a economia global? Ou por que um país que possui a maior reserva de petróleo do mundo, como a Venezuela, em vez de prosperar, parece sempre em crise? Para compreender a economia contemporânea — e até conflitos recentes, como a invasão americana na Venezuela — é preciso voltar no tempo e observar três engrenagens fundamentais: ouro, petróleo e poder.

Durante décadas, o dinheiro tinha lastro. Cada nota emitida correspondia, ao menos em teoria, a uma quantidade de ouro guardada em cofres estatais. Esse sistema, conhecido como Padrão Ouro, impunha limites claros à emissão de moeda. Governos não podiam simplesmente imprimir dinheiro sem respaldo físico. Contudo, em 1971, os Estados Unidos romperam essa lógica. O dólar deixou de ser conversível em ouro e passou a existir sustentado apenas pela confiança.

Essa mudança criou um problema estratégico: como manter a centralidade global do dólar sem lastro metálico? A resposta veio poucos anos depois, em uma jogada silenciosa e extremamente eficaz: o Petrodólar. Os Estados Unidos firmaram acordos bélicos de proteção com grandes produtores de petróleo para que a principal fonte de energia do planeta fosse negociada majoritariamente em dólares. A consequência foi direta e profunda.

Os países, para manterem suas economias aquecidas, passaram a precisar primeiro comprar dólares. Criou-se, assim, uma demanda permanente e global pela moeda americana.

É nesse ponto que ocorre uma transformação essencial. Após o fim do padrão ouro e a consolidação do petrodólar, o dólar deixou de ser apenas uma moeda fiduciária e passou a operar, na prática, como uma commodity estratégica global, cuja demanda é sustentada por energia, poder e geopolítica. No funcionamento do sistema internacional, passou a se comportar como um insumo indispensável — tão estratégico quanto o próprio petróleo.

É nesse tabuleiro que entra a Venezuela. O país não é apenas uma nação em crise política e social; ele abriga a maior reserva de petróleo do planeta. Quando um governo como o de Nicolás Maduro tenta vender petróleo fora do circuito do dólar — utilizando outras moedas ou instrumentos alternativos — não está apenas tomando uma decisão econômica interna. Está desafiando um dos pilares centrais da ordem financeira global.

A recente invasão americana, apresentada sob o discurso de ajuda humanitária e defesa da democracia, carrega uma dimensão econômica inescapável. O controle sobre o destino do petróleo venezuelano garante dois objetivos estratégicos: segurança energética e proteção do sistema que sustenta o dólar há mais de meio século.

No fim, a economia global não se resume a gráficos ou teorias abstratas. Ela é feita de energia, armas, recursos e poder. Quando entendemos que o dinheiro no nosso bolso está conectado ao petróleo que sai do solo de outros países, fica claro que a política externa é, muitas vezes, a luta pela preservação de um padrão de vida. E, até hoje, a estabilidade do dólar ainda depende de quem controla as torneiras de óleo do planeta.

(*) Mauro Falcão, pesquisador e escritor brasileiro

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