(*) Fernando Benedito Jr.
Visto que as acusações de narco-terrorista e chefe de cartel de Los Soles, Trem de Aragua e o que mais seja, não eram suficientes para o sequestro e prisão de Nicolas Maduro e sua esposa Cilia Flores, o governo de Donald Trump mudou o discurso para a prática do clientelismo, coisa comum nos círculos lobbystas de Washington, assim como a corrupção, a prostituição e outros atributos da política norte-americana que ele conhece bem.
Desde o cerco e sequestro pirata aos navios petroleiros venezuelanos, o interesse na principal riqueza da Venezuela sempre esteve na mira de Trump, cuja campanha foi em grande parte financiada com dinheiro de petrolíferas ianques interessadas em controlar a exploração mundial de petróleo. Estivesse mesmo preocupado com ditaduras, direitos humanos, liberdade, Trump bem que poderia atacar a Rússia, onde Vladmir Putin está há mais tempo no poder, matando opositores e invadindo países. Ou poderia virar seus mísseis contra si mesmo, já que a invasão do Capitólio não foi nada menos que uma tentativa de golpe de estado para se manter no poder ao perder as eleições para Joe Biden.
Outra questão intrigante é remover o presidente Nicolas Maduro e entregar o poder à sua vice, Delcy Rodriguez, notoriamente de esquerda radical, e não ao principal opositor do “regime ditatorial”, Edmundo González Urrutia, a quem muitos consideram o presidente eleito da Venezuela após as eleições de 2024; ou para Corina Machado, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e principal representante da oposição a Maduro e ao chavismo. Se Maduro fraudou as eleições, Delcy Rodrigues, da mesma chapa, também fraudou. Ou então, as eleições foram legítimas. Ou ainda, num breve exercício de conspiração, Delcy fez um acordo para dar um golpe com apoio dos EUA e da CIA dispondo-se a entregar o petróleo a Trump em troca do poder – hipótese pouco provável, mas não descartável. Michel Temer fez isso por muito menos…
Excetuando o fato de tentar transformar a invasão e bombardeio de um país em ação hollywoodiana, a lógica da política mundial tal qual a conhecíamos não se explica nem se aplica ao caso do ataque à Venezuela. De tal forma, que só mesmo o interesse no petróleo pode justificar mais esta atitude desastrosa do governo Trump que parece querer tocar fogo no mundo, pouco se importando com as consequências, para se apossar do butim. No caso, a maior fonte de petróleo do mundo. Trump está fazendo a transição energética a seu modo. Loucamente.
(*) Fernando Benedito é editor do DP.




