(*) Fernando Benedito Jr.
As relações de trabalho no mundo e no Brasil sempre foram marcadas por intensos conflitos, guerras e revoluções. A evolução do trabalho escravo para o regime feudal e, depois, para o capitalismo, são marcos históricos que não foram conquistados com diálogo e negociações, foram rupturas provadas por revoluções e lutas populares.
No século XIX, a luta contra o escravismo e o tráfico transatlântico no Brasil enfrentou a resistência da elite agrária, que, aliás, continua pensando da mesma forma até os dias atuais. A depender de suas vontades, manteriam os trabalhadores em grilhões até hoje. À época, diziam, que o fim da escravidão e a introdução do trabalho assalariado iria falir as fazendas de café, a exploração das minas de ouro, que era o início da bancarrota e da falência generalizada, se rebelaram para derrubar o governo imperial e se tornaram republicanos por desgosto. Hoje, diante do debate sobre o fim da escala 6 x 1 querem voltar aos primórdios do Império. O discurso, 138 anos depois da Lei Áurea, é quase o mesmo do baronato do café feito pelos senhores de escravos: vai falir a economia, o consumidor final será penalizado. Em nenhum momento pensam em reduzir um pouco o lucro, reduzir a ganância, em pagar salários justos, abrir novas vagas de emprego, no direito à vida e ao ócio.
Um caso ilustrativo do nível de reacionarismo e atraso é o do presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, dono do grupo Solmucci, que administra grandes bares, restaurantes e casas noturnas em Belo Horizonte. “Esse meu aumento de custo [do trabalho] de 20% implica em repasse de preços de 7% a 8% para o consumidor final. A pergunta que fica para o consumidor: ele está ciente disso? Ele concordaria com a redução da jornada para pagar mais [pelo serviço ou produto]?”, questiona ele em entrevista à BBC Brasil.
O argumento é daqueles que tem o objetivo de provocar a opinião pública e colocá-la contra o projeto que prevê 2 dias de folga na semana após a jornada de 5 dias de trabalho. E se o consumidor final não se importar em pagar o preço de seu acréscimo ao produto final para ter melhor qualidade de vida? Pode ser assim? E se o empresário for menos ganancioso e não repassar o custo ao consumidor final, absorvê-lo reduzindo lucros ou criando uma outra fonte de renda (produto ou serviço) que cubra tais despesas? Que tal? Impensável, não é, pois não é assim que o capitalismo funciona.
Então, que tal aproveitar a futura nova escala e praticar o “ócio criativo” só para viver melhor. E quem sabe criar uma alternativa menos espoliadora ao trabalho alheio. Afinal, se não vai pagar um salário digno, pelo menos garanta a dignidade de viver bem.
(*) Fernando Benedito Jr. é editor do Diário Popular.



