IPATINGA – O coletivo “Negrume Teatro” prepara a estreia de seu primeiro espetáculo, “Cabe Tanta Coisa”, com direção de Ailton Barros. A montagem acompanha a trajetória de Akin e Niara, duas crianças negras que, após a volta das férias, conversam sobre um fato racista ocorrido dentro da escola.
SURGIMENTO
Fundado em 2021 pelo ator e realizador cultural Gustavo Nascimento, o Negrume surge como uma manifestação — ou, como define o próprio coletivo, “um manifesto pelo espaço preto”, expressão evocada em um filme do cineasta Diego Paulino. O grupo nasce no interior de Minas Gerais e, desde seu nascimento, tem buscado estabelecer trocas diretas com artistas de São Paulo e Salvador, expandindo suas redes de diálogo e criação.
Para conduzir este primeiro trabalho, o coletivo convidou o artista Ailton Barros, que realiza sua estreia na direção teatral em um espetáculo infantojuvenil, e a atriz Cainã Naira. Ambos desenvolvem trajetórias artísticas consistentes na cidade e marcam, com esta parceria, uma novidade nos modos de criação do Negrume: a inauguração de pontes entre artistas do interior e da capital.
INVESTIGAÇÃO
Nesta primeira etapa do processo, definida por Ailton Barros como um momento de “investigação”, o grupo realizou leituras coletivas do texto, escrito pelo dramaturgo mineiro Matí Lima, buscando um estudo de palavras afim de compreender o que a dramaturgia comunica em termos de imagem e ritmo. Uma breve introdução ao universo do spoken word.
Segundo o diretor, o estudo da palavra falada funciona como uma ferramenta para o trabalho de respiração, tempo e desenho da sonoridade vocal. “Pensamos a voz enquanto velocidade, ar e possibilidade de desmembrar palavras, pois isso também revela vestígios de personagens e caminhos de interpretação”, afirma.
MÉTODO
Nesse processo, ele explica que vem desenvolvendo métodos que aproximam essa investigação vocal da relação direta com o texto dramatúrgico. A proposta passa por questionar a dramaturgia, investigar subtextos e inspecionar aquilo que já está dito, interrogando as razões de sua existência. “Ler o texto como uma pergunta, mesmo quando não é uma pergunta — tratar afirmações como interrogações, pontos finais como exclamações — é uma forma de compreender a temperatura do texto”, completa.
VAI
O projeto é uma realização do Programa para Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo (VAI) e tem estreia prevista para os próximos meses. Além de propor reflexões sobre identidade, representatividade e educação antirracista, o espetáculo conta com composições autorais desenvolvidas exclusivamente para o levante da montagem, aprofundando suas camadas de crítica social e adoçamento.
O público interessado em acompanhar o desenvolvimento do espetáculo e os bastidores do processo criativo pode seguir o coletivo no Instagram, pelo perfil @negrumeteatro.



