(*) Luiz Carlos Prestes Filho
FOTO: Luiz Carlos e o ator Othon Bastos
O teatro brasileiro testemunha, em “Eu não me entrego, não”, uma das demonstrações mais vigorosas de domínio cênico da atualidade. Sob a direção de Flávio Marinho, o veterano Othon Bastos não apenas interpreta; ele exerce uma soberania absoluta sobre o espaço e o tempo, reafirmando por que é um dos pilares da nossa história cultural.
Aos 92 anos, Othon Bastos exibe uma força física e intelectual que desafia o tempo. Sua presença em cena é marcada por uma capacidade de concentração inabalável, permitindo que o público mergulhe em uma narrativa densa sem quebras de ritmo. Essa solidez é sustentada por uma memória absoluta, que resgata textos e trajetórias com uma fluidez impressionante, conectando o presente às vivências históricas mais profundas do Brasil.
O espetáculo revela um ator que domina a mise-en-scène com maestria geométrica. Cada deslocamento pelo palco parece calculado para maximizar o impacto emocional, em um trabalho onde o corpo fala tanto quanto a voz. Destaca-se o seu gestual perfeito, que remete à expressividade de Charles Chaplin — uma economia de movimentos que carrega uma carga dramática gigantesca, onde um simples olhar ou o posicionar das mãos comunica décadas de resistência.
Um dos pontos altos da montagem é a integração emocional e dramática com a atriz Martha Paret. A química entre os dois em cena transcende a técnica, estabelecendo um diálogo sensível que serve de âncora para os momentos de maior vulnerabilidade e cura propostos pelo texto. É nessa troca que o espetáculo deixa de ser uma representação para se tornar uma experiência viva, tocando em traumas latentes e verdades coletivas.
A peça vai além do entretenimento; é um ato político e artístico. Ao evocar figuras como Pascoal Carlos Magno, Leon Hirszman, Glauber Rocha, Federico García Lorca, entre muitos outros, Othon Bastos utiliza sua arte como um processo de transformação. O resultado é um público que sai do teatro “emocionalmente inflamado”, consciente de que o brilho do ator é, em última análise, o brilho da própria resistência da cultura brasileira.
(*) Luiz Carlos Prestes Filho



