domingo, abril 5, 2026
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Dez anos sem Gullar, dez anos com Gullar

Por Ivan Alves Filho (*)

Em 2014, tive a honra de dar a aula inaugural da Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha. Era o início do ano letivo, no mês de outubro, creio eu. O tema da minha intervenção, que durou três ou quatro horas, foi centrado na obra do poeta e ensaísta Ferreira Gullar. Na ocasião, foi projetado um documentário que fiz sobre o nosso Gullar, intitulado “A luta poética”, no quadro da série Brasileiros e Militantes, produzida pela Fundação Astrojildo Pereira.

Para além de poder discorrer sobre alguns aspectos da obra de Ferreira Gullar, minha alegria também se deveu ao fato de a belíssima cidade de Bolonha abrigar a Universidade mais antiga da Europa, fundada no ano de 1088. Ao retornar ao Brasil, fiz uma visita à casa do querido poeta, que ficou muito feliz com tudo que relatei a ele. Ancelmo Gois, outro querido amigo, registrou o evento em sua respeitada coluna no jornal “O Globo”.   

O imenso prestígio da instituição pode ser medido pelo fato de ela ter abrigado nomes como Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Nicolau Copérnico, Torquato Tasso, Pico della Mirandola e, mais perto de nós, Pier Paolo Pasolini, Umberto Eco e Romano Prodi. A Universidade de Bolonha se alinha ainda hoje entre as de melhor qualidade em todo o mundo.

Em 2026, faz dez anos que Ferreira Gullar nos deixou. Mas sua imensa obra e sua generosidade permanecem entre nós. Criado na periferia de São Luís do Maranhão, veio para o Rio de Janeiro com pouco mais de 20 anos de idade, na década de 50. Radialista, ator, jornalista, cronista, dramaturgo, ensaísta e poeta, Ferreira Gullar marcou a cultura brasileira como poucos. Tenho a plena convicção de que ele não existiria se o Brasil não tivesse tido um Tomás Antônio Gonzaga, como também penso que não existiria Oscar Niemeyer sem Aleijadinho.

Sinto muito a falta dele, das nossas conversas matinais na sala de seu apartamento, à Rua Duvivier, no Lido. Ao lado dessa rua, ficava o Beco das Garrafas, onde surgiu a Bossa Nova.

Com o saudoso Ferreira Gullar, aprendi algo fundamental: a única coisa que estava acima da própria vida era a liberdade. Preso pelo regime militar, viveu na clandestinidade e deixou o Brasil na década de 70, passando a viver, por quase sete anos, na União Soviética, na França, no Chile, no Peru e na Argentina. Virou um maranhense errante. Escrito no exílio, seu Poema Sujo é o maior livro de poesia do Brasil no século XX, a meu ver. Não por acaso, um dos versos deste poema de um fôlego só integrou o Trenzinho caipira, de Villa-Lobos (“Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino…)

Na mesma noite em que deixou clandestinamente o Brasil, Gullar esteve em nossa casa, despedindo-se da nossa família. E este fato me emociona até hoje

(*) Ivan Alves Filho, historiador

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