sábado, janeiro 17, 2026
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Céu pequeno e a escrita como embarcação

Paulo da Rocha Dias explora o realismo fantástico e maravilhoso, verdadeira fabulação barroca-mineira, para promover “milagres toponímicos”

Jakson Moreira Goulart (*)

“Na tarde em que o menino deixou o quintal, o céu pareceu se inclinar até tocar o telhado. Não choveu, não houve vento. Apenas uma lâmpada permaneceu acesa em pleno dia, como se tivesse esquecido de se apagar. Os vizinhos passaram em silêncio, olhando para cima, e ninguém ousou chamar aquilo de milagre. Era só o céu, pequeno demais para caber em si.”

 (Céu Pequeno, Paulo da Rocha Dias)

Conheci Paulo da Rocha Dias numa sala de aula do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (UnilesteMG). Num curso de especialização que tinha o pomposo título de “Comunicação, Sociedade e Mercado” (ou quase isso). Um professor “rodado”, com jornais, livros, artigos científicos, universidades e países no currículo, e um aluno recém saído de uma redação de jornal diário onde deu expediente por quase duas décadas, ávido por conhecer as Teorias da Comunicação, discutir Linguística e entender o papel do Jornalismo para além daquilo que o revolucionário russo Vladimir Ilyich Ulianov definia como o “andaime” da revolução.

Foi assim que fiquei amigo dele. O professor Paulo da Rocha Dias passou a ser o Paulão, companheiro de manhãs, tardes ou noites – não necessariamente nessa ordem! — regadas a música, cerveja e tabaco, de viagens turísticas e literárias. Li quase todos os livros escritos anteriormente pelo Paulão – tenho todos; ele entregou mais que eu esperava ou imaginava –, mas Céu Pequeno, obra de ficção que acaba de publicar, é uma “teteia”, como definimos nas mensagens trocadas desde a primeira vez que ele me falou sobre a ideia e o enredo, até a última versão do original que me enviou por whatsapp. Uma “teteia”!, mesmo, como podem asseverar os matutos das bandas de Valverde e de São Caetano do Chopotó.

Nos primeiros capítulos originais que tive o privilégio de ler, Céu Pequeno era Santa Bárbara do Tarumirim, um lugarejo qualquer nos rincões das Minas Gerais que, mesmo não dando nome ao livro, é lembrada o tempo todo. Como podia ser também Engenheiro Caldas ou Caratinga, Alto Rio Doce ou Cipotânea, Santana do Paraíso ou Ipatinga, São Paulo ou Campo Grande, Filipinas, Irlanda, França, EUA ou China, por onde o autor passou e/ou viveu. Em suas cidades alegóricas descritas em Céu Pequeno, que, por vezes, lembram As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, Paulo da Rocha Dias reconstrói, com a precisão do jornalista e o fôlego do romancista, a memória afetiva de um território que é ao mesmo tempo geografia e mito.

A escrita como “embarcação”. A narrativa acontece entre Céu Pequeno (topônimo poético para Santa Bárbara do Tarumirim ou qualquer outra cidade que o leitor quiser) e Peixe Seco (metrópole alegórica), com deslocamentos para Jornalândia (reino dos jornalistas, claro que não poderia faltar!), povoados de nomes simbólicos (Amanhecer/Inhapim) e outras referências.

Um homem chamado José Geraldo Africano decide sair de casa para ganhar o mundo, contra a vontade da própria mãe, contra todos e contra tudo. Mesmo dando com os burros n’água, como parece à primeira vista, digo, leitura, decide ditar a sua história. Entre o vilarejo de Céu Pequeno e a metrópole de Peixe Seco, ele reencontra vizinhos, mestres e fantasmas. A “escrita” de Africano, partilhada com Zé Tatão (espécie de escriba/comandante general), os personagens centrais desse mundo tão estranho e tão familiar ao mesmo tempo, vira embarcação: leva de volta ao núcleo familiar, torce o destino, rebatiza lugares. No caminho, desfilam curandeiros e professores, tipógrafos, jornalistas e beatas, heróis e pícaros – todos convertidos em mitos domésticos.

O autor estruturou as memórias de Africano [suas?] em três movimentos – Infância / Fuga / Exílio – que recompõem a história afetiva de Céu Pequeno, sua gente, e a travessia para Peixe Seco e Jornalândia. O fio condutor é a busca de “paz e felicidade” pela escrita compartilhada com Zé Tatão e em diálogo com Beatriz, a musa cuja presença aproxima a tessitura do dolce stil novo – como que inspirado no movimento literário italiano dos séculos XIII e XIV, desenvolvido por poetas como Dante Alighieri e Guido Cavalcanti, entre outros autores que entendiam o amor como uma qualidade intrínseca da alma nobre, uma força que eleva o indivíduo e o aproxima do divino.

Africano é o sujeito da memória, o exilado, entre pertença e desterro, que vive o “banzo” do retorno impossível. Zé Tatão é o mediador erudito-popular, poliglota, tronco dos comentários e desvios intertextuais. O livro é escrita de memórias a quatro mãos, metalinguagem que une (e confunde) o autor fictício e o escriba, o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação.

Beatriz é a musa/condutora onírica da memória narrada em Céu Pequeno. Macrino, Dona Maria, Carolina, João Ferreira, Tião Arvilino, Antõe Araújo, Professora Lene, entre outros personagens, com maior ou menor importância, pintam retratos de comunidade entre o picaresco e o mítico, reinventam lendas locais (lobisomem), vivem pequenos momentos épicos do cotidiano.

Num enredo que lembra o realismo fantástico e maravilhoso, verdadeira fabulação barroca-mineira, o autor promove “milagres toponímicos” (Céu Pequeno como Pasárgada), procissões, padres italianos macarrônicos, santos e lobisomens, e uma intertextualidade densa, com referências, por exemplo, à história da imprensa, política, Bíblia, poesia, música popular – tudo com humor e ironia. Cria uma topografia simbólica (Céu Pequeno, Peixe Seco, Jornalândia) que dramatiza pertença, exílio e ofício, e um léxico inventivo e oral (português “cassange”, jogos de nomes, hibridismos).

“O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência de seus ouvintes.”

(O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, Walter Benjamin)

Paulão é mestre nisso! O livro articula memória individual e memória coletiva por meio de um romance de formação às avessas (o herói é formado pelo exílio) e de uma epopeia comunitária. Ao incorporar figuras históricas e da imprensa brasileira ao lugarejo (nem tanto) ficcional, a obra também funciona como romance de ideias sobre jornalismo, tempo e linguagem — coerente com as pesquisas acadêmicas do autor nos campos do jornalismo, obituário e história da notícia, por exemplo.

Paulo da Rocha Dias, o meu amigo Paulão, que já escreveu para jornalões e jornalecos, que deu aula para jornalistas de todos os tipos – como eu –, deixou sua marca no Vale do Aço, publicou oito livros, rodou parte do mundo, combateu o bom combate, sempre duelou com as palavras, traduziu cânones da Comunicação – não importa se alemão, francês, inglês, estadunidense, filipino –, funde os talentos de escritor, filósofo e poeta, e mostra, em Céu Pequeno – que, suspeito, pode ser alguma cidade do Vale do Aço ou da Vertente Ocidental do Caparaó, mais conhecida como região de Caratinga (MG), ou da Região Metropolitana de Cipotânea, recriado como espaço mítico brasileiro –, uma linguagem inventiva, com humor e oralidade refinada. Seus personagens, caóticos, erráticos, aparentemente desenganados, levam o leitor a um diálogo vivo com a história do jornalismo e da literatura.

Referências e intertextualidade. O livro de Paulo da Rocha Dias encena uma colagem de mitos, de História do Brasil e da imprensa, e cânones literários: Cipriano Barata como sentinela de Jornalândia; Carlos Rizzini como mestre fantasmático do jornalismo; Getúlio Vargas/Olga Benário transpostos como “corta-goelas”; Dante/Beatriz/Virgílio recodificados no Leste de Minas Gerais; Adélia Prado, Robert Frost, ecos de Pedro Nava, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e Gabriel Garcia Márquez. Haja referências, ufa!

Muitos autores e muitas vozes ecoam dentro da própria diegese do autor, do mundo criado por Paulo da Rocha Dias a partir do qual a história é contada. A “voz” de qualquer personagem, um barulho do motor ou a música que toca no rádio dentro do carro são sons diegéticos, pois são parte do universo da história. Todas as pessoas e seres que existem dentro da narrativa (personagens) também o são, da mesma forma que tudo o que está em cena, como móveis, cenários e os objetos que os personagens interagem, as ações e eventos que ocorrem na narrativa.

Entre Céu Pequeno (Santa Bárbara do Tarumirim) e a alegórica Jornalândia, o narrador Africano atravessa infância, fuga e exílio, guiado por Beatriz e anotado por Zé Tatão – uma parceria de escrita que transforma lembranças em matéria épica.

“A experiência que passa de boca em boca é a fonte a que recorreram todos os narradores. E entre os que escreveram, os melhores são os que menos se afastaram dela.”

(O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, Walter Benjamin)

Biblioteca de alusões. Desde as primeiras conversas com Paulão sobre Céu Pequeno, lá pelos idos de 2023, quando ele ainda estava ocupado com as aulas na Universidade Federal de Mato Grosso e na Paróquia de Campo Grande e uma série de traduções do alemão, à medida em que fui “conhecendo” os personagens, comecei a buscar semelhanças com outras obras e outros autores. Alguns são inevitáveis: o narrador-memorialista Africano lembra tanto o Paulo Honório de São Bernardo, de Graciliano Ramos (autoexame duro), como o narrador de Pedro Nava (memória como arqueologia afetiva) e o Juan Preciado de Pedro Páramo, de Ruan Rulfo (assombros comunitários), fronteiras porosas entre memória e assombro, mas com ternura lírica e humor.

Busquemos outros personagens, outras referências: Zé Tatão (escriba erudito) ecoa Bentinho, de Brás Cubas, na autoconsciência narrativa. Nessa biblioteca infinita de alusões como motor narrativo, Beatriz, a musa de Céu Pequeno, faz ponte direta com Dante, em chave terna-popular que aproxima o amor cortês de realidades periféricas brasileiras.

Sem contar que a comunidade de Céu Pequeno (Macrino, Dona Maria, Carolina etc.) compõe um coro macondiano à brasileira, vizinho das aldeias de García Márquez e dos vilarejos armoriais de Ariano Suassuna. Estão lá: a oralidade e a hipérbole picaresca de Ariano Suassuna em Romance d’A Pedra do Reino, a cavalaria nordestina transposta ao Leste mineiro, o humor popular e a erudição barroca em convívio; e a vila mítica, o tempo espiralado, genealogias e “milagres” cotidianos, procissões, santos, dilúvios e metamorfoses simbólicas como no universo de García Márquez (Cem Anos de Solidão). Se na obra de García Márquez o realismo fantástico é explosivo e coletivo – o impossível invade a realidade inteira, sem pedir licença –, em Céu Pequeno é sussurrado e íntimo – o impossível é quase uma percepção subjetiva, uma dobra da experiência cotidiana.

“O céu cabia inteiro dentro da janela do quarto. Bastava empurrar a cortina para que uma estrela se prendesse no vidro. Não era um milagre, era costume da noite: repetir-se sempre igual, como quem ensina silêncio.”

(Céu Pequeno, Paulo da Rocha Dias)

Fabulação de alta voltagem verbal. Professor aposentado (recentemente) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), ex-professor do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (UnilesteMG), de Coronel Fabriciano, escritor, pesquisador e repórter, doutor em Comunicação Social, amante da música clássica, do canto gregoriano, da MPB e do rock’n’roll – ah, ele também é padre! –, Paulo da Rocha Dias opera em Céu Pequeno uma fabulação de alta voltagem verbal: a oralidade popular convive com referências à história da imprensa, à política brasileira e ao cânone literário, num texto que respira humor, lirismo e invenção. Procissões e lobisomens, professores e tipógrafos, santos e fantasmas caminham lado a lado pelas ruas por onde andou – sobretudo pelas bandas do Leste de Minas Gerais –, rebatizadas para que a vida caiba na linguagem.

O resultado é um romance de memórias e ideias, em que cada personagem parece arrancado do chão – e cada nome, polido até acender. Enfim, Céu Pequeno é um livro sobre pertencer e partir, sobre a maquinaria do tempo e o ofício da palavra. Um acerto de contas amoroso com a terra e com a língua.

Sobre o autor. Paulo da Rocha Dias é mineiro de Engenheiro Caldas, criado entre Alto Rio Doce, Caratinga, Santa Catarina, São Paulo e Londrina (PR), um cosmpolita. Graduou-se pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Além da carreira acadêmica e jornalística, o autor é padre. Iniciou sua formação no Seminário Diocesano de Caratinga e integra o Pontifício Instituto de Missões Estrangeiras (PIME).

Padre por vocação, jornalista por ofício e escritor por necessidade interior, Paulão nunca separou a missão evangelizadora da tarefa de narrar o cotidiano. Sua formação acadêmica acompanha essa amplitude. Passou pelo seminário em Caratinga, estudou Letras em Florianópolis, aprofundou-se em Teologia, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero (SP), construiu mestrado e doutorado em Comunicação Social na UMESP, estudou Linguística em Chicago (EUA).

No exercício profissional, atuou como repórter, colunista e colaborador em diversos veículos, de O Estado de Florianópolis ao Diário do Aço, Diário Popular e Rádio Itatiaia Vale do Aço, passando por outros jornais impressos e portais digitais. É doutor em Comunicação Social e atuou como professor do curso de Jornalismo do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (UnilesteMG), em Coronel Fabriciano, e na Universidade Federal de Mato Grosso, onde se aposentou recentemente. Sempre com a marca de quem prefere a crônica reflexiva ao comentário apressado, a observação sensível ao juízo ruidoso.

Um jeito de permanecer. A infância no interior mineiro foi o primeiro exercício de atenção de Paulo da Rocha Dias ao detalhe, ao gesto simples, à palavra dita sem pressa. Depois vieram Caratinga, Florianópolis (SC), Estados Unidos, Filipinas, Irlanda, México, São Paulo, Santana do Paraíso – com um breve período na China – e Cuiabá (MT), nessa ordem. Cada cidade, uma língua; cada país, uma escuta; cada tempo, um aprendizado. Em fevereiro de 2026, nova missão: México.

Aos 65 anos de idade, sua trajetória não se organiza como currículo, mas como narrativa. Céu Pequeno sintetiza esse caminho: um livro de memórias sutis, onde o mundo cabe em cenas breves e a viagem é menos geográfica do que humana. Paulo da Rocha segue viajante, com a mesma disposição de quem acredita que contar histórias é, no fundo, uma forma de permanecer.

(*) Jornalista, ex-aluno de Paulo da Rocha Dias.

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Livros publicados pelo autor

– Comunicação, cultura, mediações – O percurso intelectual de Jesús Martin-Barbero.

– O amigo do rei: Carlos Rizzini, Assis Chateaubriand e os Diários Associados (2004).

– Um chapéu, um cavalo branco e uma lanterna.

– Gênese do ensino de Jornalismo no Brasil: influências norte-americanas – 1908/1958 (2018);

– O obituário no Jornalismo (2020);

– Jornalismo e notícias falsas: relações cordiais (2022);

– Os primeiros tratados sobre o Jornalismo: A contribuição dos pesquisadores alemães do século XVII (2025).

– Céu Pequeno (2025).

(*) Jakson Moreira Goulart é jornalista e mobilizador social. Ex-aluno e quase conterrâneo de Paulo da Rocha Dias.

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