(*) Mauro Falcão
A modernidade consolidou uma narrativa de libertação: o homem teria finalmente escapado das trevas dogmáticas para a luz da ciência. Contudo, uma análise ontológica mais rigorosa revela que essa transição não foi uma ruptura com o autoritarismo, mas uma transferência de trono.
A ciência, ao reivindicar uma autonomia absoluta, oculta as raízes filosóficas e religiosas que a sustentam, negando seu próprio berço para justificar um lucrativo monopólio da cura.
É fato inconteste que a religião foi, e lamentavelmente continua sendo, vítima de clérigos e presbíteros maliciosos. Ao longo da história, figuras de autoridade distorceram o sagrado para exercer controle, acumular riquezas e manipular a fé alheia.
É precisamente neste ponto de vulnerabilidade que a ciência ancora sua bandeira de hegemonia. Ao apontar o dedo para os abusos do clero, o discurso científico se autopromove como a única via ética e “pura”, blindada contra as falhas humanas.
No entanto, ao despir-se da humildade filosófica, a ciência passa a cometer os mesmos erros que condena. A “casta” de especialistas substitui o clero; o jargão impenetrável substitui o latim litúrgico; e a exclusão de quem não reza pela cartilha acadêmica torna-se a nova excomunhão. Onde antes se vendiam indulgências, hoje se negocia o acesso a tratamentos e inovações que, muitas vezes, são apenas a sistematização de saberes ancestrais e coletivos, agora devidamente patenteados.
Reconhecer que a ciência não é autônoma exige um ato de coragem: o reinício. O ser humano, por natureza, busca a inércia das zonas de conforto, onde o fluxo financeiro e o prestígio profissional estão garantidos.
Admitir que a educação global é um mosaico de matizes religiosas e filosóficas seria interromper essa engrenagem de lucro. Seria admitir que a razão não cria a realidade, apenas a organiza a partir de conceitos que a precedem.
A ciência deve ser criteriosamente seguida, mas nunca adorada como um deus isolado. Quando ela se fecha em si mesma, ignorando que as paredes de suas próprias universidades foram erguidas por ímpetos de fé e inquietação metafísica, ela deixa de ser uma busca pela verdade para se tornar uma estratégia de mercado.
O verdadeiro saber não pode ser monopolizado, pois ele nasce da integração entre o método e a semente da esperança — aquela mesma que, nos momentos de crise profunda, nos faz olhar para o que antes desprezávamos em busca de salvação.
(*) Mauro Falcão, pesquisador e escritor brasileiro



