Cultura

O avanço e o perigo do fascismo

“Brasil acima de Tudo. Deus acima de todos.” A frase que aparentemente é só um slogan de campanha, na verdade revela algumas das características clássicas do fascismo, o uso da religião como forma de manipulação de massas e o nacionalismo exacerbado também como forma de cooptação social. Surgido na Itália em 1919 com Benito Mussolini, o movimento fascista não é uma novidade no Brasil. Os “camisas verdes” de Plínio Salgado, líder do movimento integralista foi um dos pilares do fascismo no Brasil na década de 30 do século passado. Ressurgiram depois, durante a ditadura Vargas no período de 1937-1945 e mais violentos durante a ditadura militar, que durou de 1964 a 1988.

Bolsonaro é a nova expressão do fascismo brasileiro, que já esteve no poder de outras formas

MILÍCIAS

A violência, aliás, é outra característica do fascismo que normalmente se inspira e se associa à força militar para manter-se no poder. O movimento fundado por Mussolini, por exemplo, era composto por unidades de combate (fasci di combattimento) e assim como as SS de Hitler, tinham o objetivo de perseguir, caçar seus oponentes e aniquilá-los, fossem eles comunistas, intelectuais, gays, deficientes físicos, sindicalistas, enfim, todos que não se enquadravam no perfil de raça, credo, cor, opção sexual, etc, do regime, ou simplesmente não se alinhassem a ele.

Adolf Hitler, em traje de gala, passa em revista a guarda de honra, em Berlim, Alemanha

O nazismo, variante alemã do fascismo, responsável pela execução de 6 milhões de judeus nos campos de concentração da Alemanha e outros 47 milhões durante a 2ª Guerra Mundial, em grande parte prosperou graças ao apoio do Eixo (regimes fascistas totalitários da Itália, Espanha, Portugal, Japão e até do Brasil). Nesse período, que vai da tomada do poder pelo nazi-fascismo à sua derrocada com o fim da 2ª Guerra, a humanidade conheceu as maiores atrocidades que o mundo já viu. O ódio, perseguição e morte de judeus é uma das mais violentas atrocidades, mas os ciganos do Leste da Europa, etnias e religiões foram perseguidas e muitas delas eliminadas. Mesmo as bombas atômicas lançadas em Nagasaki e Hiroshima são conseqüências dos desdobramentos da 2ª Guerra Mundial e das alianças que se estabeleceram.

ERA VARGAS

No Brasil, durante a “Era Vargas” os sindicatos foram colocados sob controle do Ministério do Trabalho. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) exercia a censura diretamente na redação dos jornais e os que insistiam na oposição ao regime eram destruídos, incendiados, depredados. Atualmente, ameaçam “hackear”, banir, boicotar, tomar qualquer atitude de censura porque não concordam com o ponto de vista.

A polícia política, prendia, torturava e matava. Os estrangeiros que faziam oposição ao Estado Novo eram deportados – o caso mais notório é o de Olga Benário, esposa de Luiz Carlos Prestes, que foi presa grávida e enviada ao campo de concentração de Auschwitz, onde morreu.

Cena do Filme “A Onda” que explica o surgimento do nazi-fascismo

RESSURGIMENTO

No Brasil, o fascismo ressurge com força durante as eleições presidenciais de 2018, representada pela candidatura de Jair Bolsonaro. Capitão reformado do exército, ele sintetiza toda a expressão de um movimento que pretende instalar um regime fundamentado no autoritarismo, no totalitarismo, na violência, no preconceito, no nacionalismo xenófobo, no uso manipulatório da religião e da família tradicional; por outro lado, pretende implantar políticas que desvalorizem o respeito às minorias, às mulheres, aos direitos humanos, às opções sexuais, de credo, das etnias. O discurso do ódio, da violência, da homofobia está aí batendo às portas para quem quiser ver.

Vítima de um atentado a faca por um agressor que discordava de suas idéias políticas, Bolsonaro utiliza o fato para reafirmar suas propostas, embora tenha parado de fazer gestos como se estivesse atirando, que simbolizam sua idéia de armar a população. Volta e meia diz que lugar de bandido é na cadeia, bandido bom é bandido morto e outras frases de efeito que demonstram pouco ou nenhum conhecimento sobre conceitos elementares de justiça e desprezam absolutamente os de direitos humanos. Nesta toada, é seguido por um bando senhores e senhoras, alguns cientes do que defendem e falam, mas a maioria nem tanto, que fazem coro a um programa de governo que em pouco tempo pode não ser tão bom quanto pensam.

FASCISMO E BOLSONARISMO

O fascismo bolsonarismo tem inúmeras características que o associam com os modelos clássicos implantados na Itália, Espanha e Portugal. Embora com nova roupagem, a face excludente, violenta, totalitária e preconceituosa é a mesma, talvez com um pouco menos de apuro intelectual, o que também não deixa de ser um limite desta corrente de pensamento político, ideológico e filosófico.

Trata-se de uma tendência que valoriza o nacionalismo, mas não o nacionalismo do povo e suas riquezas materiais e imateriais, sua cultura. Perdido em contradições, defende um nacionalismo xenófobo, fechado em si mesmo; anti-imigrantes, mas colonialista; que quer preservar as riquezas nacionais, mas adora o grande capital.

De viés totalitário e corporativista, o fascismo tenta exercer o controle absoluto dos direitos dos cidadãos, seja no contexto político, cultural ou econômico. Não à toa, volta e meia os jornais que não concordam com os pontos de vista de Bolsonaro são taxados de comunistas (inclusive a Rede Globo, execrada por socialistas de toda sorte), censurados, os artistas são vilipendiados (“mamam na Lei Rouanet”). Enquanto isso, a campanha fascista promete armas para a população, convoca à violência, não menciona nenhuma ação para a saúde, bem-estar e educação do povo.

MILITARISMO

A ênfase no militarismo é outra característica do fascismo que salta os olhos na “República Bolsonarista”. Ele próprio um capitão reformado, seu vice um general e a promessa de que se pudesse colocaria generais em todo o seu ministério. Uma verdadeira adoração militarista que arrebanhou a simpatia dos quartéis e o apoio de policiais civis, militares, bombeiros, artilheiros, marinheiros. Essa legião, num eventual governo tende a ser adorada e vangloriada pelas massas, apresentados como heróis em desfiles cívicos e paradas militares. Se se corrompem como os mortais comuns, se matam e violam direitos, nada disso importa, nem virá à tona. Nos regimes fascistas a polícia é altamente militarizada e possui ampla autonomia para lidar com problemas internos e domésticos que normalmente não necessitam de participação militar.

VIOLÊNCIA

A obsessão com a segurança nacional, normalmente sintetizada no perigo comunista, é um apelo comum neste tipo de governo, que para se perpetuar no poder busca demonizar ao máximo seus adversários. Neste sentido, o uso da violência e a ameaça constante é um estratégia infalível para manter a sociedade sob controle.

A violência em uma sociedade altamente militarizada e em constante confronto, é uma forma de se impor os ideais do governo, convencendo os cidadãos de que os direitos humanos não são prioridade. No fascismo não existe valorização da liberdade, da integridade física, da igualdade ou mesmo da vida. Nos regimes fascistas, o desprezo pelos direitos humanos é transmitido para a população, que passa a ser conivente com práticas como execuções, torturas, prisões arbitrárias, linchamentos físicos e morais, etc, que ao fim ao cabo costumam se voltar contra seus criadores. Mussolini, por exemplo, foi sumariamente fuzilado por partizans anti-fascistas.

CENSURA

Ao contrário da democracia, o fascismo é incapaz de conviver com as diferenças. A intolerância é uma marca que em sua gênese traz o ódio. Com o apoio de parte da população, os governos fascistas hostilizam e estimulam a hostilidades contra aqueles que se opõem às suas concepções. Intelectuais e artistas com a capacidade de questionar o regime e influenciar o povo a fazer o mesmo são perseguidos, e qualquer forma de insurgência contra o Estado é rechaçada de forma violenta.

Além da violência física, os governos fascistas a fim de manter a integridade do sistema, tendem a controlar os meios de comunicação. Por vezes, o controle é exercido diretamente pelo governo e, em outras, a mídia sofre regulação indireta. De qualquer forma, a censura a ideias contrárias ao regime é comum.

RELIGIÃO

Finalmente, o uso da religião como forma de manipulação é outra maneira de domínio dos governos fascistas. Tanto na Alemanha quanto na Itália o fascismo, nos primeiros anos, disputava a devoção das pessoas com a igreja. No entanto, os dois governos resolveram utilizar a religião a seu favor para manter os ideais da população alinhados e reunir mais seguidores. Dessa forma, os fascistas passaram a traçar paralelos forçados entre preceitos religiosos e ideologias políticas para manipular as pessoas. Na Itália, Mussolini, além de ser ateu, havia planejado confiscar os bens da igreja até decidir incorporar a retórica religiosa em seus discursos.

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