Cidades

Menos Médicos: acesso à saúde é um privilégio

(*)Fernando Benedito Jr.

Sob o governo golpista de Michel Temer, o acesso à saúde se torna um privilégio dos ricos e fica cada vez mais distante dos pobres e “mal remediados” da classe média, batedores de panela que apoiaram o golpe e agora sofrem calados e envergonhados as suas conseqüências. De uma penada só, Temer, o ilegítimo, resolveu decretar a moratória dos cursos e faculdades de medicina, proibindo a abertura de novos cursos durante 5 anos. É o “Menos Médicos”, como diria a presidente deposta Dilma Rousseff. Por isso, os médicos brasileiros, estudantes de medicina, residentes, repetindo a cantilena de donos de hospitais, clínicas e escolas, eram tão a favor do golpe e tão contra os “comunistas cubanos” que vieram lhes tomar os postos de emprego nas cidades do interior do País.
Em nome da reserva de mercado, alegavam que os “comunistas cubanos” não sabiam medicina, receitavam folha de hortelã e outras ervas medicinais, não sabiam português, portanto, não conseguiam diagnosticar uma gripe. E por isso deveriam morrer. Na verdade, reforçavam o lobby da indústria de medicamentos, dos grandes laboratórios farmacêuticos, dos proprietários de hospitais, dos donos das escolas de medicina (que querem diminuir a concorrência), da Associação Médica Brasileira e sua lógica perversa: as escolas atuais formam médicos ruins, que não sabem diagnosticar e gastam tubos de dinheiro com pedidos de exames desnecessários, fazem tratamentos errados e demorados que lotam os hospitais e sobrecarregam o SUS.
Na verdade, com a moratória dos cursos de medicina, diminui o número de médicos no mercado, os que passarem pelo seletivo funil de quem consegue pagar de R$ 8 a 10 mil a mensalidade de um curso “meia boca”, continuarão senhores absolutos do saber científico sobre o corpo humano, ainda que tão ruins quanto aqueles a quem negam o mesmo direito ao saber, e podendo praticar a ciência do jeito e ao preço que bem entenderem – neste caso, tabelas são relativas. De sacerdócio, a medicina virou um negócio. Um negócio exclusivo e rentável, que se proíbe até mesmo àqueles que queriam fazê-lo por sacerdócio, tal a dimensão insana da coisa.
O argumento da baixa qualidade dos cursos de medicina e, logo, dos médicos, no Brasil é bem chinfrim. Grande parte deles sai das faculdades com um conhecimento precário e só aprende mesmo na prática, nas portas de entradas dos hospitais, nos consultórios, nas tentativas, erros e acertos. A ética hipocrática já foi às favas há muito tempo, porque o que importa nem é o humanismo que deveria sacramentar a prática da medicina, é o fato de ainda ser uma profissão que garanta algum futuro, algum dinheiro, alguma segurança, caso contrário, o pessoal poderia estudar Direito ou jornalismo que daria no mesmo, afinal, dom, aptidão pra coisa é o que menos conta. O que prevalece é o egoísmo capitalista: “Já me formei mesmo, que se dane o outro! Tenho que garantir o meu, preservar meu mercado.” Coisa típica da família classe média tradicional que se orgulha de ter um médico na família – o que está longe de ser um médico de família – para ostentar a conquista como um troféu. Por isso, vão para os aeroportos bater panela e destilar venenos odiosos contra os “comunistas cubanos” que chegam ao Brasil para tomar seus empregos. O que é outra farsa, porque tem doente pra todo mundo.
Agora, para melhor ainda mais a saúde no País, o governo golpista resolveu acabar com o programa Farmácia Popular do Brasil e a com a distribuição de medicamentos a preços baixos. É mais um golpe contra os pobres cada vez mais pobres, em nome dos ricos cada vez mais ricos, no caso em tela, os grandes laboratórios farmacêuticos. Porque alguém vai ser beneficiado com esta “política” e não é o brasileiro doente que precisa de médico e de remédio.
Mas pelo menos nisso o governo acertou: Já que não tem médico pra quê dar remédio. E aí temos o pacote completo da nova política de saúde, que se completa com a mais absoluta liberdade aos planos de saúde que tudo podem. Ou, em breve, poderão.

(*)Fernando Benedito Jr. é editor do Diário Popular.

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