Cultura

Meio século dedicado ao teatro

Após 50 anos de carreira, Darci di Mônaco resume: apesar de muita luta e poucas glórias, faria tudo de novo

IPATINGA – O mês de março marca uma data muito importante na vida do ator e diretor de teatro Darci de Mônaco: 50 anos de carreira. Nascido em Jaguaraçu, Darci veio para Ipatinga ainda menino e aos nove anos participou de suas primeiras manifestações artísticas ainda na escola.
As comemorações dedicadas a meio século de carreira de Darci se estenderão por todo o ano. E a primeira será uma participação que o ator fará na peça ‘As Santinhas do Pau Oco’. “Eu já escrevi um texto e fiz muitas apresentações com essa peça. Agora até mesmo para me homenagear como diretor e autor, também fui convidado para participar da peça com os atuais atores”, conta Darci. Em cinco décadas de carreira, Darci atuou em variados segmentos das artes cênicas. Como diretor e ator, participou de 67 peças teatrais. No cinema, foram três filmes.

INÍCIO
A vida de Darci se confunde com a arte, pois desde os 14 anos ele escreve peças e monta espetáculos. No início, as coisas foram mais difíceis devido à pouca experiência e à falta de pessoas que pudessem ajudá-lo.
O primeiro espetáculo montado por Darci di Mônaco foi ‘A Branca de Neve e os Sete Anões’, inspirado no filme de Walt Disney. “A minha primeira peça foi no ano de 1962 e muitas pessoas que trabalharam comigo naquela época já são até avôs. Eu tinha assistido ao filme e quis fazer aquela peça, então foi fácil reproduzir as cenas. Eu montei as cenas em forma de teatro e comecei a colocar em prática”, disse o diretor.
Um acontecimento desta peça ainda está vivo na memória de Darci e hoje é lembrado com gargalhadas. Na tentativa de reproduzir a cena do espelho mágico, quando a bruxa má do filme conversa com uma imagem esfumaçada, o diretor acabou causando uma explosão. “Quis fazer o espelho mágico para abrilhantar a peça, mas eu não sabia como fazer para sair fumaça. Perguntei algumas pessoas e me falaram que eu precisaria de pólvora. Então eu coloquei uma caixa de pólvora no turíbulo, que é aquele incensário que eles usam na igreja católica. E uma menina que participava resolveu segurar e colocou em frente ao rosto. Eu não sabia que explodia, achei que só fizesse fumaça. Quando eu virei, aquilo explodiu, arrancou as sobrancelhas da moça e despelou o rosto dela todo”, revelou.
Após as apresentações da peça, Darci di Mônaco passou a ensaiar juntamente com o seu grupo nos fundos da casa do prefeito de Ipatinga daquela época, Jamil Selim de Sales. “Começamos a montar outras peças e ensaiar os textos nos fundos da casa do ex-prefeito Jamil. No final de semana íamos pra casa dele e ocupávamos o lugar que era dos cavalos. Ele mandava os animais para algum lugar e a gente limpava e ficava lá. De lá saiu a peça ‘Os Colegiais’, que falava sobre drogas”, relembrou Darci.

ATREVIDO
O ator e diretor se define como ‘atrevido’. “Eu gosto de fazer as coisas perfeitas e não gosto de gente parada que faz tudo igual. Eu quero sempre inovar e sempre fui uma pessoa bem à frente do meu tempo. Enquanto as pessoas faziam um teatro sempre morno e igual, eu fazia diferente. Eu fui o primeiro diretor de Ipatinga a mostrar um ator nu em cena”, diz Darci.

DESTAQUE
Para Darci, é difícil eleger uma peça como a de maior sucesso, mas ele considera o espetáculo ‘A Revolta dos Anjos’ o de mais repercussão em toda a sua carreira. “Esta peça que eu montei teve muito destaque em Ipatinga e em todo o Estado. Na ocasião, fui até elogiado pelo secretário de cultura do estado. A peça falava da diversidade sexual e tratava da vida de três homossexuais de outras cidades do país que foram morar juntos em São Paulo. E os anjos eram o que eles tinham dentro de cada um”, conta o diretor de teatro.
Darci contribuiu para a formação de vários atores na região: “muitas pessoas que passaram por mim ainda estão atuando e fazem questão de dizer que foram meus alunos. Tem o Zezé Badaró, que é muito conhecido e hoje trabalha em Boston, o Frabrízio Teixeira, conhecido como Farofa, que já fez algumas novelas na Rede Globo. Tem a Josana, que hoje está na Record. E também Othon Valgas e outros nomes da nossa região”, informou Darci.

APOIO
O diretor se diz satisfeito com as homenagens que recebeu ao longo da carreira, mas se entristece ao falar do pouco apoio que recebeu. “Eu faço de tudo um pouco. E eu acho que mereço alguma coisa pelo meu trabalho. Não tem ninguém no interior comemorando 50 anos de teatro. Eu tive muita luta e poucas glórias. A satisfação que eu tive foi simplesmente com o meu trabalho, porque apoio de verdade foi pouco”, disse o diretor.
Mas, para ele, todas as dificuldades valeram a pena. “Tudo valeu a pena. Hoje eu tenho até um grupo em uma rede social sobre os 50 anos de carreira de Darci di Mônaco que já alcançou 2 mil amigos. Se você me perguntar se valeu a pena, eu diria que começaria tudo de novo!”, concluiu.

Comemorações marcam inauguração de teatro
Ipatinga
– O ano de comemorações dedicadas à carreira de Darci di Mônaco será marcado pela realização de um sonho: a inauguração do Teatro di Mônaco, construído pelo ator e diretor. A obra foi realizada em um empreendimento de Darci – o ator tinha dois apartamentos e um terraço no bairro Canaãzinho, e decidiu utilizar o espaço para construir um teatro.
Diante de muita luta e trabalho, o local será inaugurado ainda no mês de março. “Qualquer empresa que vá construir um teatro é mais fácil, mas eu como uma pessoa física construir um teatro é muito difícil. O teatro terá capacidade para 100 pessoas porque eu nunca gostei de teatro grande. Na nossa região, as pessoas não têm muito o hábito de ir a teatros”, contou Darci. A casa de espetáculo está localizada na rua Eliseu, 106 – C, bairro Canaãzinho, Ipatinga.
A intenção de Darci é que as peças do Teatro di Mônaco fiquem em cartaz por pelo menos três meses. “A culpa de as pessoas não terem a cultura de ir ao teatro não é delas, e sim da inconstância. No meu teatro cada espetáculo vai ficar em cartaz vários meses. Porque se a pessoa não pôde ver hoje por causa de algum imprevisto, ela pode ver na próxima semana e assim cria-se o hábito de ir ao teatro mais vezes”, considerou o ator.

Homenagens

A Câmara Municipal de Ipatinga irá homenagear a carreira de Darci di Mônaco. O presidente do Legislativo, vereador Nardyello Rocha (PSD), propôs a realização de uma Sessão Solene em homenagem aos seus 50 anos de teatro. O vereador considerou Darci um “garimpador e formador de talentos da região”. Para Nardyello, o diretor é  “simples e magnífico”.
Um documentário também está sendo produzido para homenagear Darci. O curta metragem contará a história da carreira do diretor e a previsão é de que seja finalizado em 60 dias.

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