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Divergência sobre liberdade evidencia caráter político da prisão de Lula

(*) Fernando Benedito Jr.

Se havia alguma dúvida sobre o caráter político da prisão do ex-presidente Lula, ela foi dissipada no domingo depois da ordem de soltura dada pelo desembargador Rogério Favreto. A reação destemperada dos juízes e promotores da força-tarefa da Operação Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal de Curitiba, para cassar a decisão, num verdadeiro cerco a Lula, foi imediata.  Um verdadeiro frenesi judicial para evitar a desqualificação da prisão injusta, que acabou escancarando ainda mais o papel político da medida de restrição de liberdade como forma de evitar a candidatura e a eventual vitória de Lula nas eleições presidenciais deste ano.

Na verdade, o caráter político da prisão de Lula é evidente desde o primeiro momento, mas a roupagem da qual foi travestida, para justificar a continuidade do golpe de 2016, que é o “combate à corrupção do PT”, foi o que ficou no imaginário popular plantado pela Rede Globo e a grande mídia monopolista e golpista.

Tão logo foi anunciada a decisão de soltar Lula, em seguida cassada, setores da direita odienda, guiados pelo grande Alexandre Frota (a que ponto chegamos), um de seus principais líderes depois de Bolsonaro, se apressaram em levantar a “capivara” do “desembargador petista” de Curitiba e a atormentá-lo por sua decisão, diga-se de passagem, correta. Como juiz de plantão cabia-lhe decidir sobre o habeas corpus pedindo a soltura do preso, pré-candidato à Presidência da República, que está sendo prejudicado em seu direito de ir e vir, de expressar e manifestar livremente suas opiniões, que está tendo seus direitos constitucionais violados, que está preso sem provas e que é vítima do abuso de autoridade dos torquemadas do Tribunal da Santa Inquisição de Curitiba.

Pois bem. O torquemada-mor, de férias em Portugal, de lá mesmo se manifestou no processo e mandou deixar Lula do jeito que está, articulou-se com seus pares do tribunal inquisitorial e manteve a prisão. Ele, sim, intempestivo e fora de sua competência. Em Lisboa, de férias, e inteferindo para manter o castigo de seu prisioneiro de estimação.

Rapidamente, os haters anti-lula e anti-PT colocaram as manguinhas de fora para dar sua opinião sobre a decisão judicial. Os brasileiros, muito sábios nas questões de política, futebol e religião, nos últimos tempos, aprofundam seus conhecimentos também nas leis e, doutos, já debatem as decisões das cortes brasileiras com a sapiência dos grandes juristas e magistrados. Não que não possam, até devem fazê-lo, mas não com tanta “segurança jurídica”, principalmente quando se trata de manter Lula preso, por exemplo, porque senão vai faltar sabedoria para os ministros do Supremo.

Então, no afã de combater a corrupção do PT, os haters da direita fascista não vêem nada demais em Moro às gargalhadas com Aécio; em Nova York posando com Dória, ambos de fraque e gravata borboleta (aquela coisinha mais fofa e bonitinha), mostrando suas tendências burguesas, ostentando e esfregando suas vidinhas riquinhas na cara dos mortais.

O que se vive no Brasil hoje é uma clara disputa pela hegemonia política. De um lado os que defendem os pobres, o proletariado, as políticas transversais (direitos humanos, das etnias, das mulheres, das minorias), que defendem os direitos dos trabalhadores, as políticas sociais de redistribuição de renda, a soberania nacional, etc. De outro lado, os que defendem os interesses de banqueiros, das indústrias, do agronegócio, a reforma trabalhista, o desmonte das estatais e sua entrega ao capital estrangeiro, a reforma da Previdência, os privilégios das classes abastadas. É isso. E no meio disso, o combate à corrupção do PT. Os outros corruptos podem continuar corrompendo e fazendo das suas que não tem problema. Que se danem os escrúpulos, que se dane a frágil democracia brasileira. Tem é que manter Lula preso senão ele ganha as eleições e começa tudo de novo, começa com aquela história de Bolsa Familia, Minha Casa Minha Vida, transposição do rio São Francisco, devolve os direitos afanados dos trabalhadores, fortalece sindicatos, aumenta as reservas do País, inventa esse negócio de explorar o pré-sal, traz médicos de Cuba e segura os lucros selvagens dos capitalistas nacionais e transnacionais.

Ora, será que é preciso desenhar para entender que estamos vivendo um momento conturbado da luta de classes no Brasil, ou tem alguém aí achando que isso tudo não passa de mais um filme de Eliot Ness combatendo corruptos e sonegadores. Combatendo o mal criado pelo PT, a corrupção criada pelo PT, enquanto o país se esfrangalha, também por culpa do PT, (pelo menos na mente insana da classe média idiotizada pela Globo e pela Veja), depois de o PT ter sofrido um golpe que destituiu uma presidenta legimamente eleita e ver preso sua principal liderança, duas vezes eleito presidente da República e líder das pesquisas de opinião, para evitar que seja eleito novamente.

(*) Fernando Benedito Jr. é editor do Diário Popular.

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