Cidades

Cultura pede socorro

Enterro simbólico da cultura de Ipatinga, na PMI, durante manifesto contra fechamento da Escola Municipal de Artes Cênicas Antônio Roberto Guarnieri, no último dia 23   (Crédito: Bruno Soares)

 

IPATINGA – Três anos. Esse é o tempo em que os projetos culturais em Ipatinga estão sendo desenvolvidos de forma precária ou mesmo parados. Desde 2009, o governo municipal atrasa o repasse dos convênios com as entidades, comprometendo o trabalho dos grupos que realizam atividades culturais na região. Na avaliação dos artistas, há pouco investimento, quase nenhum interesse e falta de diálogo do Governo Robson com a classe artística.
Entre os exemplos do abandono, estão a tradicional Igreja São Vicente de Paula, na comunidade do Ipaneminha, e o Clube Dançante Nossa Senhora do Rosário, conhecido como Congado. Ambos estão com as atividades paralisadas por falta de investimento. A igreja encontra-se interditada desde que o beiral da frente do prédio caiu, no início do ano.
Recentemente, a Escola Municipal de Artes Cênicas Antônio Roberto Guarnieri foi despejada por falta de pagamento do aluguel mensal. E a Escola Municipal de Música Tenente Oswaldo Machado, conhecida como Escola Tom, vive uma situação parecida e as atividades também estão comprometidas por falta de verba da Prefeitura.
Projetos paralisados, convênios que ainda não foram firmados e entidades sem ter onde guardar os equipamentos. Essa é a atual realidade da cultura de Ipatinga.
Enquanto o prefeito cruza os braços, os profissionais do setor cultural se mobilizam para cobrar a execução de políticas públicas para o setor cultural. Muitos tiram dinheiro do próprio bolso para custear despesas mensais das entidades. “Hoje em Ipatinga a única tradição que sobrou é o Festival da Banana, no bairro Pedra Branca, porque com essa festa eles gastam muito dinheiro. E, em compensação, nós temos que pagar as despesas que a Escola Municipal de Artes Cênicas tem, porque para isso o governo não tem dinheiro”, contou Leila Cunha, presidente do Conselho Municipal de Cultura de Ipatinga.

REVOLTA

Não é difícil encontrar pessoas insatisfeitas pelas ruas da cidade. E esses sentimentos de revolta e indignação têm levado muitos profissionais à porta da Prefeitura em busca de uma resposta. Mas nem manifestos e reuniões têm sensibilizado o Executivo.
Após o fechamento da Escola Municipal de Artes Cênicas Antônio Roberto Guarnieri, a classe artística tentou mais uma vez agendar um encontro com o prefeito para tratar da situação. A reunião foi marcada e, quando parecia que o problema estava perto de ser solucionado, os profissionais tiveram uma surpresa.
Um dia antes do encontro previsto, em um telefonema, uma secretária da Prefeitura desmarcou a reunião. Sendo assim, os profissionais foram ao gabinete do prefeito e realizaram uma manifestação. Dessa vez, eles fizeram um enterro e decretaram a morte da cultura de Ipatinga. “A reunião foi cancelada e ninguém nos informou nem o motivo. É muita falta de respeito e nós fomos até a Prefeitura cobrar providências para que a cidade não deixe de ser um polo de cultura do Estado. Esse é o panorama artístico cultural da cidade: um caos”, concluiu Wenderson Godoi, membro do Conselho Municipal de Cultura de Ipatinga.

Projetos enviados em abril ainda não foram analisados
Ipatinga
Venceu na última sexta-feira (25) o prazo para que o governo de Robson Gomes (PPS) divulgasse a aprovação dos projetos aprovados pela Lei de Incentivo à Cultura em Ipatinga. Os trabalhos foram entregues ao Executivo há mais de 30 dias e ainda não foram analisados.
Uma comissão deveria ter sido ser formada pela Prefeitura para que os projetos fossem avaliados, mas os nomes ainda não foram escolhidos. E enquanto isso os artistas continuam aguardando o aval do governo para executarem as atividades.
Os valores destinados à Lei de Incentivo à Cultura já estão previstos em orçamento e foram devidamente aprovados pela Câmara Municipal de Ipatinga.
Em 2009, 24 projetos foram aprovados e uma verba de R$ 500 mil foi liberada. Já em 2010, 22 projetos tiveram a aprovação do governo municipal, para o mesmo montante do ano anterior. No ano seguinte, o número de projetos inscritos foi maior e consequentemente as aprovações também. Em 2011, foram aprovados 38 projetos – para R$ 770 mil reais. Neste ano, as aprovações ainda não foram divulgadas, mas o valor destinado será R$ 800 mil.

Comprometimento
O tempo mínimo de duração dos projetos culturais seria seis meses, mas devido aos atrasos recorrentes por parte da Prefeitura Municipal, a execução vem sendo comprometida. No ano passado, a verba foi liberada em meados do mês de outubro e os projetos tiveram a duração de pouco mais de dois meses. O atraso causou indignação aos artistas e em agosto passado eles realizaram uma manifestação na Prefeitura, pedindo a liberação dos valores.
“A questão da cultura em Ipatinga está ruim tem muito tempo e todos os projetos que a gente faz demora muito tempo para conseguir desenvolver. É mesmo a morte da cultura em Ipatinga. Não conseguimos manter nem as estruturas que eram fundamentais, como a escola de teatro e a escola de música”, declarou Luzia di Resende, autora do projeto Palco Giratório 2, trabalho de manutenção de espaços para os espetáculos que acontecem na casa Perna de Palco. O projeto dela está orçado em R$ 30 mil.
Luzia considerou frustrante o último trabalho realizado pelo seu grupo. “No ano passado, as pessoas não conseguiram assistir aos trabalhos. Tivemos problemas de público. As oficinas eram gratuitas, os espetáculos eram gratuitos, mas as pessoas já estavam fazendo outras atividades. E isso tornou o projeto inviável, não atendeu a quase ninguém. É frustrante porque o trabalho fica muito prejudicado, a gente trabalha pra cumprir prazo, mas sem ter o tempo adequado para desenvolver o projeto”, considerou.
Para Wenderson Godoi, o atraso nos projetos causa um mau uso do valor destinado. “Acaba que é jogar um recurso público no lixo porque no ano passado, por exemplo, o recurso saiu em meados de outubro e nós tínhamos que terminar o projeto no dia 31 de dezembro. Tinham vários projetos sem público porque tudo estava acontecendo ao mesmo tempo e as pessoas não conseguiam prestigiar”, concluiu o membro do Conselho Municipal de Cultura de Ipatinga.


Em agosto de 2011, a classe artística também enfrentou problemas devido ao atraso no repasse das verbas 
(Crédito: Arquivo/Nilmar Lage)


AUDIÊNCIA É ESPERANÇA PARA ARTISTAS

IPATINGA – A classe artística de Ipatinga está organizando uma audiência pública para o próximo dia 31, às 19 horas, na Câmara Municipal. O objetivo do encontro é promover uma discussão junto à sociedade para buscar uma solução para os movimentos culturais do município.
A intenção é que o encontro sensibilize o poder público para que os recursos para os projetos culturais sejam liberados o quanto antes. “O recurso está previsto no orçamento, os projetos estão prontos e nada acontece. É muito estranho o que acontece nessa cidade e a gente fica sem esperança”, declarou Wenderson Godoi, do Conselho Municipal de Cultura.

DESCASO
Os artistas alegam que o atual secretário de Cultura, Esporte e Lazer, Luís Henrique Alves, e o prefeito Robson Gomes (PPS) não aceitam discutir o atraso no repasse das verbas. “Convocamos uma audiência pública para que o nosso secretário de Cultura seja obrigado a participar e prestar esclarecimentos. Além de uma garantia do depósito da verba e também de investimentos na cultura”, disse Wenderson.
É esperada ainda a presença de um representante do Ministério da Cultura. “Pelo menos durante a audiência eles têm que responder a todos os nossos questionamentos e então acho que vamos conseguir dar um passo”, considerou a presidente do Conselho de Cultura de Ipatinga, Leila Cunha.

SISTEMA
Desde o início do ano, o Conselho vem lutando para que um Sistema Municipal de Cultura seja instituído na cidade, mas a iniciativa também não foi concretizada. “Tem aproximadamente três meses que o Conselho preencheu um formulário para aderir ao Sistema Municipal de Cultura, para que a cidade possa receber o apoio do Ministério da Cultura, financeiro e de envio de mão-de-obra para a cidade. E para isso basta o prefeito assinar o documento e mandar para Brasília, mas nem isso eles fizeram”, contou Leila Cunha, completando que o envio do documento significa recursos diretos para a cidade.


Para a presidente do Conselho Municipal de Cultura
de Ipatinga, Leila Cunha, governo não se preocupa com o setor

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