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Sávio Tarso

Sávio Tarso é jornalista, historiador e cineasta Imagem do Redator sobre o autor
04/10/2017 11h37

Do nó da gravata ao corte de privilégios

Tenho 47 anos e trago comigo uma frustração: não aprendi até hoje a fazer o nó da gravata. Essa complicada operação era uma das duas bandeiras de luta da minha bancada de vereadores na legislatura de 1989-1992.

Tenho 47 anos e trago comigo uma frustração: não aprendi até hoje a fazer o nó da gravata. Você sabe executá-lo? Faço o nó de marinheiro, o nó de porco e até o nó da forca do Tiradentes (aprendi com meu finado pai), mas não consigo executar o prosaico nó da gravata.
Essa complicada operação de enlaçar o famoso adereço masculino para finalizar o tradicional indumentário do pastores, empresários e políticos era uma das duas bandeiras de luta da minha bancada de vereadores na legislatura de 1989-1992. Apresentamos um projeto de resolução para abolir definitivamente a obrigatoriedade do uso de terno e gravata durante as sessões e permitir que os nobres edis se vestissem com liberdade sem ferir o decoro da Casa Legislativa.
No dia da reunião ordinária, um dos nossos correligionários apareceu com a gravata na testa, alegando que o regimento interno não definia que o item deveria ser posto no pescoço, portanto, havia uma brecha legal para ser usada na parte que bem entendesse. Outro argumentou que não fazia sentido uma cidade operária incorporar uma vestimenta elitista e burguesa, alienando as origens proletárias e humildes dos representantes do povo. Teve um que apelou para o clima escaldante do Vale do Aço. Não seria irracional colocar terno, camisa longa e gravata numa cidade que chega a fazer 40º à sombra, no verão? Sem falar do desperdício de energia elétrica com o consumo exagerado dos aparelhos de ar-condicionado. Tudo em vão.
Discursos inflamados, ânimos exaltados, sessão tensa com muitas discussões acaloradas mas o resultado final veio com uma derrota esperada. Somente os seis vereadores da minha bancada votaram a favor da eliminação do uso da gravata. Rebeldias a parte, hoje até considero que a peça e seu conjunto conferem uma certa postura legal a um papel social, o papel do parlamentar, que exige, em tese, elegância, polidez e civilidade para quem o exerce.
A outra bandeira de luta que trazia um tema de extrema relevância, ao contrário, foi recepcionada com ares de extrema calmaria. Outro projeto de resolução da nossa bancada já em 1889 tinha o objetivo de acabar com a Aposentadoria Especial dos vereadores de Ipatinga que com apenas oito anos de mandato seria considerado aposentado. Isto é, o sujeito se elegia vereador num pleito e se reelegia no seguinte e já teria o direito de se aposentar com salário integral de vereador pago pelo município. Uma verdadeira aberração. Aliás, diga-se de passagem, um privilégio que ainda se mantém intacto em diversas casas legislativas país a fora.
Ao contrário da tentativa de corte da gravata, salvo engano desse narrador, nenhum edil se manifestou contrário à proposição e deste modo sepultamos um desses infortúnios que ocorrem com o Estado Brasileiro, mutilado, infiltrado, espoliado e apropriado por interesses de grupos de poder. Fico pensando também no atual quadro dos servidores públicos aposentados ipatinguenses que imploram pelo pagamento das suas complementações sem resposta das últimas gestões sobre como solucionariam o impasse que custa mais do que os milhões a serem restituídos. Custa a dignidade de uma classe de trabalhadores e de uma cidade inteira que se solidariza com a causa.
Nesses tempos das famigeradas Reforma Trabalhista e Reformas da Previdência, viajo no tempo e relembro a expressão tranquila de cada edil da Câmara Municipal de Ipatinga daquela época. Nesse caso específico, na votação do projeto de resolução para acabar com uma aposentadoria especial e imoral, corrigiram a distorção sem hesitação, sem nenhum nó na garganta, apenas o da gravata. Cumpriram com muito estilo, garbo e elegância, o papel de cuidar do interesse público. Pois não há elegância mais vistosa do que a elegância do caráter.

(*) Sávio Tarso é ex-vereador em Ipatinga, jornalista, historiador e cienasta.

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